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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Que Tal um "Desfile de Páscoa"?

Nenhum outro filme retratou a Páscoa com tanta alegria e romance como "Desfile de Páscoa", de Irving Berlin. Dirigido por Charles Walters, lançado em 1948, este incrível musical tem em seu elenco Fred Astaire, Judy Garland e Ann Miller - um trio arrasador, falando de talento, em qualquer produção, juntos ou individualmente. Peter Lawford, embora em sua carreira não tenha sido tão brilhante quanto aos demais, consegue convencer nas cenas românticas e até arrancar risadas do espectador. Com produção de Arthur Freed, suas tomadas de dança foram coreografadas por Robert Alton. O responsável pelo som é o lendário Roger Edens, que mais tarde trabalharia com Judy Garland em seus concertos, depois da saída dela da Metro. O triângulo amoroso Don/Hannah/Nadine tem como pano de fundo os tradicionais desfiles de Páscoa da 5ª Avenida, em Nova York, que se transformaram numa febre no início do século 20 e perdurou até a década de 40.

PROBLEMAS DE PRODUÇÃO

Durante a sua produção, "Easter Parade" teve alguns problemas. Originalmente, o papel de Nadine Halle havia sido escrito para a bailarina clássica Cyd Charisse, mas esta rompeu os ligamentos do joelho e ficaria bastante tempo sem dançar. O elenco então foi modificado e Nadine foi interpretada por Ann Miller. Finalmente a oportunidade dela havia chegado. Além de sair da obscuridade dos filmes "B" da Columbia, ela agora realizaria o sonho de dançar com Fred Astaire. Quem vê o número "Shaking The Blues Away", com uma maravilhosa Ann sapateando e girando como se a qualquer momento fosse levantar vôo do palco, não imagina o quanto ela sofreu para filmá-lo. Ela tinha acabado de se separar de um marido violento que a atirou do alto de uma escada, grávida de 9 meses. Obviamente, além de perder a criança, a bailarina ficou toda machucada e teve que fazer os números de "Easter Parade" com um colete. É um dos momentos mágicos onde a arte supera todos os problemas. Um verdadeiro artista não desiste de seus objetivos. E com Ann Miller não foi diferente. Vincente Minnelli estava cotado para ser o diretor, porém o modo como queria conduzir o enredo não agradou Arthur Freed. Ele achava que "Desfile de Páscoa" tinha que ser suave e alegre. Quando Charles Walters entrou no lugar de Minnelli, foi adicionado aos roteiristas antes contratados Frances Goodrich e Albert Hackett, o nome de Sidney Sheldon. O papel de Don Hewes estava reservado para Gene Kelly, que já havia contracenado com Judy em "For Me and My Gal"(1942). Antes de começar as filmagens, Kelly se acidentou em sua casa enquanto brincava com amigos e parentes. Era habitual na casa do ator e bailarino fazer brincadeiras atléticas como correr um atrás do outro pelos cômodos da casa, além de jogar Vôlei e Futebol. A notícia de que Gene estaria impossibilitado de filmar alarmou o produtor Arthur Freed. Mas não por muito tempo...

UM SENHOR PARA UMA SENHORITA

"Desfile de Páscoa" seria o grande musical daquele ano. Era o que Arthur Freed pensava, com entusiasmo. Logo surgiu a idéia de substituir Gene Kelly por Fred Astaire. Dono de uma longa carreira em Hollywood, ele começou nos palcos de Vaudeville com sua irmã Adelle, dançando, cantando e atuando. Na década seguinte, o talento de Fred na dança estremeceu as audiências de cinema, especialmente por sua parceria com Ginger Rogers, em sucessos como "Shall We Dance", "A Alegre Divorciada", "O Picolino", dentre outros. A estrela dele era reconhecidíssima e ele era extremamente respeitado, mas isso não deixou de impedir que uma preocupação viesse à cabeça da equipe de produção: Fred Astaire já era um senhor, já havia se aposentado e se dedicava mais à família, sendo que Judy Garland era uma menina de 26 anos. Será que esse casal soaria estranho? Será que o público aceitaria? Bem, sabemos que o filme foi e é até hoje um sucesso. Um dos maiores musicais da história do cinema. A química entre Fred e Judy é inegável. Engraçados, talentosos, apaixonados pelo que faziam. Não poderia dar errado.

OS NÚMEROS MUSICAIS

"Desfile de Páscoa" é luxuoso, exatamente como pedia cada musical da MGM, com arrebatadores 17 números musicais. Uma inovação na época. No entanto, tem seus momentos em que a simplicidade é mais e isso é mostrado logo no início do filme. Don(Astaire) sai para procurar um chapéu para sua amada Nadine(Miller), a fim de ir com ela ao desfile de Páscoa. Ele anda pelas ruas despreocupado, assobiando e desejando "boa Páscoa" a todos que por ele passam. Na loja, belas moças apresentam os chapéus para ele em forma de canção.
Escolhido o chapéu, ele entra em uma loja de brinquedos. Se encanta com um coelho de pelúcia cobiçado por um menino. Decidido a convencer o garoto a desistir do coelho e comprar uma bateria, ele começa a cantar "Drum Crazy". A habilidade do personagem com os tambores deixa o menino encantado e, é claro, também pelo seu sapateado. A brincadeira de Astaire neste número é genial: ele dança usando a bateria com os pés, brinca com outros instrumentos, sobe nos balcões. "Drum Crazy" é simples e inteligente. Incrível como um artista pode pegar uma loja de brinquedos como cenário e colocar a sua genialidade ali, transformando tudo, tão descompromissado, divertido, sapateador, tocador de bateria. "I'm drum crazy, yes, I'm".
Outra mistura de simplicidade e beleza trouxe o romance. É a belíssima melodia "It Only Happens When I Dance With You". Tema de amor de Don e Nadine, são os dois que dançam a música pela 1ª vez(ela é tocada 3 vezes no filme), com um apaixonado Astaire suavemente versando "I have been dancing with dozens of others the whole night through/but the thrill that comes with spring/when anything can happen/that only happens with you"("Eu tenho dançado com tantas outras pela noite inteira/mas a emoção que vem com a primavera/Quando tudo pode acontecer/Isso só acontece com vocẽ"). Na segunda vez, o instrumental, com o casal dançando para o público do Ziegfeld Follies. Pela última vez, "It Only Happens..." é cantado ao piano por Hannah Brown(Judy), declarando seu amor por Don.
Artista e palco se encontram sozinhos em números fantásticos como "Shaking The Blues Away", por Ann Miller, a sequência de audição de Hannah e Hewes no Ziegfeld Theater com "Ragtime Violin", "I Love a Piano", "Alabama Choo Choo" e outras, mas engenhoso é "A Couple of Swells": a dupla vestida de mendigos, numa coreografia e construção cênica divertidas, cheias de humor, num cenário montado com novamente a simplicidade e inteligência - no palco, os atores estão na rua, onde o fundo se movimenta como se eles estivessem andando de verdade. Foi Judy quem inspirou Fred a intensificar a imagem do mendigo, sujando os dentes e o rosto de graxa e empoeirando bastante o paletó. Paletó este que ela fez questão que fosse bem acima do seu tamanho, dando ainda mais ênfase ao desleixo de um habitante de rua.
Uma curiosidade: ainda no início do filme, quando Don tenta transformar Hannah em Nadine, eles executam um número de dança em que ela está coberta de plumas em seu vestido. A cada passo mal dado pela desastrada aspirante a artista, as plumas entram pela boca de Don, que se sente bem desconfortável. Dizem que isto foi uma sátira para afirmar o horror que Fred Astaire tinha pelos vestidos que sua parceira Ginger Rogers usava. Eles os chamava de "cafona e horrorosos" e os dois jamais se entenderam fora de cena.
O luxo combinado com genialidade são vistos em "The Girl On a magazine Cover" e "Stepping Out With My Baby". É maravilhoso ver, no 1º número citado destes, modelos imóveis envoltas em um quadrado, cada uma, com logos de capas de revistas como "Vogue", "Vanity Fair", Harper's Bazaar", dentre outras. O curioso é que, todas as revistas mostradas ainda estão em circulação. O público olha aquele espetáculo e acredita realmente que é uma capa de revista. Um tenor canta a música e de repente surge Ann Miller com os bailarinos, com competência, magia e toda a sofisticação que o número  pedia.
É em "steppin' Out With My Baby", um dos melhores números do filme, que podemos ver toda a grandiosidade do bailarino Fred Astaire. Com seu paletó branco e bengala, impecável, ele se transpõe da tela, como a própria dança. Suas manobras e passos precisos e elegantes conduzem a música em que ele canta, sempre com suavidade, exalando a arte dos movimentos em sua forma maior.
Em um momento excitante, a câmera lenta em Fred e normal nos bailarinos atrás dele nos faz pensar em como os diretores de arte eram realmente excelentes, sem nenhum recurso de computação gráfica ou montagem. Através dessa idéia da cãmera lenta, saboreamos cada passo, cada gesto, a maneira atlética como jogava sua bengala pra lá e pra cá. Imperdível.
Judy canta sozinha em "Better Luck Next Time" e com uma banda e um pequeno público, no início de "Desfile de Páscoa", a primorosa "Michigan", quando tenta mostrar a Don, pela 1ª vez, que tinha talento. Inútil. Ele já tinha ido embora.
A música que é título do filme é apresentada no seu encerramento: "Easter Parade". O reconciliamento de Hannah e Don e seu tão esperado desfile de Páscoa, na 5ª Avenida, agora com Hannah reconhecida, sem viver à sombra de Nadine. "I can't hardly wait to keep our date/this lovely easter morning/and my heart beat fast as i came to the door"("Eu mal posso esperar em te encontrar nesta linda manhã de Páscoa/E meu coração acelera enquanto eu me aproximo da porta"). "Mr. Monotony" foi o número deletado do filme. Garland está cintilante, com um tuxedo preto justo e um chapéu, no que viria a apresentar em "Casa, Comida e Carinho", com a música "Get Happy". Porém só a parte de cima do tuxedo não era habitual das mulheres em 1912, onde a história se passa, e foi decidido que aquele figurino ficaria escandaloso demais e não combinaria com o resto do filme. Uma pena, pois ela está ótima e dançando muito bem. It's the Garland's touch!

Esta é a  dica de Cinema Clássico para a Páscoa. Se puderem assistam a este incomparável filme. Ele é imperdível!!






Hannah e Hewes audicionam para Ziegfeld!

Mr.Monotony: o número que ficou fora do filme

21 comentários:

Corto Maltese disse...

Ouvi dizer que a Judy Garland ficou muito apreensiva porque não conhecia o Fred Astaire e coube ao Sidney Sheldon, roteirista do filme, apresentar os dois nos bastidores.

As Tertúlias... disse...

Querida Dani, adorei! Que postagem mais didática! Ótima pesquisa!!! (E que coincidencia fazer-mos duas postagens paralelamente sobre o mesmo tempo). Sabia que para o papel de Hannah estava escalada June Allyson? E mais uma vez engravidou (Nao sei quantos filhos ela teve com Dick Powell). Um detalhe simpático é que "The Barkleys of Broadway" deveria ter sido uma continuacao de "Parade". Mas Judy adoeceu... e, of all people, Ginger Rogers tomou seu lugar no que se transformou num filminho bem chatinho!

Corto Maltese: foi por causa de uma cena de beijo... explico nas Tertúlias!

P.S. Amo "Mr. Monotony", amo a forma com que todas as músicas de Irving Berlin foram usadas em "Easter" compondo um musical...

Happy Easter!!!!!!!!!

As Tertúlias... disse...

Esqueci de acrescentar que realmente achei a maior coincidencia o fato de ter-mos usado o mesmo tema... mas é fácil de explicar... dois cinéfilos... na época da páscoa... é até estranho que nao tenham aparecido mais postagens, né?

Bem diferente do que aconteceu com minha postagem sobre "Tammy" (de 1 de abril, lembra?), filminho esquecido, empoeirado e até desconhecido. Num Blog chamado "Vintage" apareceu no dia 5 de abril uma postagem também sobre "Tammy". Imagino o que amigos em comum devem ter pensado(como por exemplo o incrível "Falcao Maltes" que colocou lá, ironicamente, o mesmo comentário que havia deixado para mim). Coisas da vida...

Um beijo e lindos feriados!
Ricardo

Daniele Moura disse...

Ricardo,
obrigada pelos elogios!

Eu acho que em caso de datas festivas, as coincidências acontecem mesmo por aqui. Nestas datas comemorativas a gente tem a idéia de falar sobre "um filme de Páscoa", "um filme de natal", e por aí. É natural. Acima de tudo, foi o que vc colocou: somos cinéfilos, de gostos parecidos, então a propensão à coincidência aumenta. E é ainda melhor para divulgar um filme tão maravilhoso como "Desfile de Páscoa", quando mais de um posta. É sinal que lembram e respeitam o filme e a memória dele vai se propagando a novas gerações, cada vez mais!
Eu tive a idéia, há 10 dias, mais ou menos, de postar "Desfile de Páscoa", mas se fizesse isso muito antes da data não seria tão comemorativo. Achei, como vc também, que tivessem mais blogs com este filme.
Não sabia sobre a June Allyson,. Obrigada pela informação. Existem várias lá por detrás que a gente não fica sabendo, mas sobre isso eu realmente nunca tinha lido.

Daniele Moura disse...

Corto Maltese, obrigada pela visita! A curiosidade está no post do Ricardo:
www.tertulhas.blogspot.com

Um abraço
e boa Páscoa pra vocês!
Dani

As Tertúlias... disse...

Dani querida, coloquei esta resposta lá nas Tertúlias mas a copiei para aqui - para que voce logo a veja!
Volto ainda hoje com o tema abaixo. Até mais tarde!

Querida Dani,
nossa... fiquei feliz com estas palavras acima!!! Voce tem grande razao: é muito difícil a gente ser pessoal e ao mesmo tempo nao opinativo (eu nao o consiho - he he - sou super opinativo... ). De uma olhada num Blog amigo meu que se chama "Jornalístico" (está entre os Blogs que sigo...). Minha amiga pessoal, nao só do Blog, Maurette, tem este dom... de uma olhada em suas postagens... ela também fez uma vez um comentário que transformei em postagem... está aqui mas tenho que procurar a data par te indicar... Depois volto e te digo, OK?
Beijos
Ricardo

Daniele Moura disse...

Tenham todos um belo domingo de Páscoa, com união e harmonia. Somos todos cinéfilos blogueiros. Devemos nos manter unidos!
Um abraço!
Dani

As Tertúlias... disse...

Dani querida, aqui um belíssimo exemplo!!!!!! É isso o que quiz dizer....

http://tertulhas.blogspot.com/2009/01/peach-melba-o-comentriopostagem-de.html

Júnia disse...

Lógico que não deixarei de comentar, sou sua seguidora praticamente desde o início do seu blog. Por gostar tanto do seu espaço deixei seu link no Grupo de Blogs Clássicos como referência para que todos possam conhece-lo.
beijos
Boa Semana e obrigada pelo carinho e força!!!

Daniele Moura disse...

Ôpa, obrigada, Júnia!

Que legal saber disso!

Ricardo, o comentário sobre este lindo post já está lá no Tertúlias, ok?

Um abraço e ótima semana a todos!
Dani

As Tertúlias... disse...

Dani, amei! E emviei para a Maurette! Ela via adorar!!! Uma linda semana para voce!

Rubi disse...

Poxa!
Eu sabia muito pouco sobre este filme (que por sinal é ótimo) Sou suspeita pra falar pois adoro tanto o Fred quanto a Judy. Já não se fazem mais filmes como antigamente, infelizmente. Já tive a oportunidade de assistí-lo, e de fato, não só pra quem gosta de clássicos, como pra todas as pessoas, é um filme imperdível.
Fora que Fred Astaire, (e Gene Kelly também hahahaha) , na minha opinião, são os melhores dançarinos da época. Achei super legal você nos presentear com este filme numa época tão especial como esta. A propósito, quero lhe sugerir um filme, não sei se faz o seu tipo haha, mas costumo recomendar pra todos que gostam de cinema. Chama-se Wings. Bom, fica aí uma sugestão pra você, espero que encontre e goste!

Até mais.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Amo esse filme, Daniele. A sintonia entre Judy e Fred é perfeita.

Abração e apareça,

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Daniele Moura disse...

Rubi, é o Wings, com a Clara Bow?
Antonio, claro! Apareça também!

Um abraço,
Dani

Júnia disse...

Dani,
não sabia que você cantava tão bem. Vi hoje um link seu no youtube e fiquei encantada, a Carla que me mostou...Gente, muito bom!!!!
Adorei

Daniele Moura disse...

Olá, Júnia!
fico muito feliz que a Carla tenha te mostrado o link! Agradeço a ela e a você pelo elogio!
Que bom que gostou! Em breve vou gravar mais coisas.

Um abraço
Dani

Júnia disse...

Posso divulgar vc cantando lá no Vintage?
Achei tão lindo que até passei o link para o Alan do Cingrafia. Ficamos encantados!!!
Gente....
Lindo!

Daniele Moura disse...

Claro que pode, Júnia! Que maravilha!
Obrigada pela força!
Fico feliz que tenham gostado!
Um abraço
Dani

disse...

Olá, Dani! Que bom ver algo durante a Páscoa que nào sejam filmes bíblicos (embora eles sejam belos e importantes.. esta Páscoa, por exemplo, vi Ben Hur e Quo Vadis). Adorei as curiosidades! Não pude deixar de imaginar Gene Kelly correndo pela casa!
Abraços, Lê.

Daniele Moura disse...

Lê,
eu também vi Quo Vadis durante a Páscoa. É um filme atemporal, não é mesmo? Belíssimo, uma superprodução pra ninguém botar defeito...e com um casal que eu adoro: Deborah Kerr e Robert Taylor.
Abraço, Dani.

Daniele Moura disse...

Lê,
por causa do que aconteceu com o Blogger, o meu último comentário foi perdido. Então, vou repostá-lo:
Assisti Quo Vadis também durante a Páscoa, embora tenha em dvd. É um filme fantástico! Eu também adoro filmes bíblicos(ou sacros) , porém Desfile de Páscoa é uma maneira mais alegre de comemorar a data.
Abraço
dani