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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

"Suspicion", Alfred Hitchcock

Baseado no livro "Before The Fact", este filme teve um único erro: o fato de Hollywood ter mudado o final que Hitchcock planejava(e filmou) simplesmente por que Cary Grant era visto como bom moço e, segundo eles, a audiência não o aceitaria como um assassino. Com roteiro de Samson Raphaelson e Joan harrison, foi o primeiro filme produzido e dirigido por Alfred Hitchcock e lhe deu uma leveza imensa como artista, ao realizá-lo.
Para a produção de SUSPICION, lançado em 1941 pela RKO, Joan Fontaine se ofereceu para trabalhar de graça no papel de Lina, tamanha sua empolgação com a estória original. E fez um grande trabalho. Um dos seus melhores momentos no cinema e que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz daquele ano. Cary Grant é uma surpresa à parte: ele consegue levar um personagem divertido e brincalhão e ao mesmo tempo, envolver o público em mistério com um caráter duvidoso. Será Johnny um real assassino? Apesar do final ter sido modificado, com o casal vivendo feliz para sempre, não tem como não perceber a marca de Hitch durante o filme. Tudo aponta para que o personagem seja, de fato, um criminoso, e para a editora deste blog, ele é sim, o culpado.
Mas devemos atentar para o fato de que Lina sempre se enganava com ele. Quando ela pensava que ele poderia estar armando uma emboscada para Beaky(Nigel Bruce em excelente forma), ela erra, chega em casa e encontra os dois conversando. Então, estaria Lina tendo alucinações? Sim e não. Quem já assistiu SUSPICION  deve lembrar da sequência das cadeiras, por exemplo, presente do pai da moça, que são vendidas por Johnny para pagar uma aposta em cavalos. Johnny é o típico bad boy, irresponsável, vadio, que queria uma boa vida, cercado de mulheres admiradoras e...irresistível. Ele brinca com Lina o tempo todo e a assusta com as besteiras que faz. Também vale lembrar a notícia do emprego, onde ele flutua com a cabeça da esposa de uma maneira sinistra.
O filme é marcado por estes acontecimentos. Para Lina(Fontaine), uma moça que estava fadada ao esquecimento amoroso, devido à sua timidez, Johnny foi a sua salvação como mulher. Logo no início do romance, do alto de um precipício, ele a apelida estranhamente de "monkey face"(cara de macaco), e ela toma isto como uma delicadeza. É sozinha e até a família desacredita nela, achando que Lina nunca se casará.
As duas marcas de Hitchcock neste filme são as personalidades dos personagens. Lina, a esposa inocente, que passa a desconfiar do marido. Johnny, o arquétipo do suspeito, quase a marca indelével de um assassino frio. Com suas brincadeiras, ele consegue amolecer o coração da menina apaixonada. A expressão em seu rosto passa de assustada e amedrontada para chorosa e arrependida. Então volta a acreditar nele, afinal, seu amor é maior.
Em todo o decorrer de SUSPEITA, Lina leva sustos com Johnny, até descobrir que ele começou repentinamente a se interessar por estórias policiais, que sempre envolviam um assassinato. Seu interesse se aguça no jantar na casa da escritora Isobel Sedbusk(Auriol Lee), quando ele inicia uma conversa à respeito de venenos. Um dos pontos altos do suspense Hitchcockiano, Lina se apavora e passa a desconfiar ainda mais.
Depois de um desmaio de Lina, vem a cena mais emblemática do filme. Cary Grant subindo as escadas, na escuridão, com um copo de leite. Hitchcock explicou que colocou uma luz elétrica incandescente no fundo do copo, para que a cena se tornasse ainda mais sinistra. Afinal, o que havia naquele copo? Será que Johnny havia finalmente posto em prática seus estudos sobre venenos através daquele leite? O suspense se torna ainda maior(para o deleite do público), pois Lina, cada vez mais confusa, decide não tomar a bebida. Joan Fontaine, em entrevista, disse que nos originais de Hitchcock, este seria o final de SUSPEITA: a personagem dela morreria envenenada pelo copo de leite misterioso. Mas este foi censurado e o filme dá continuidade.
Tenho uma particular predileção por este trabalho do mestre do suspense, um carinho especial que me faz colocá-lo várias vezes, de tempos em tempos. Apesar de achar que INTRIGA INTERNACIONAL ou SABOTADOR são superiores no período do diretor em Hollywood. Fora os filmes deliciosos feitos na sua fase britânica. Mas isto é assunto para um outro texto!

NÃO BEBA ESTE LEITE, LINA!!!

O JOGO DO EMPURRA-EMPURRA... NO ALTO DO PRECIPÍCIO!

MEU MARIDO ANDA LENDO COISAS ESTRANHAS...

11 comentários:

@qFernando - Blog Título Bacana disse...

Só pelo cenário ao fundo da foto da cena do precipício já deu medo. sério, filmes do Hitchcock já dariam medo só pela trilha sonora e cenografia ainda junta o tipo de suspense que só ele sabe escrever, e hj em dia o fato dos filmes serem muito antigos, e convenhamos filmes antigos devido a baixa tecnologia de som e imagem q existia já dão medo por si só tmb... enfim, nunca vi suspicion , mas pelo post deu vontade de ler.. até mais.

As Tertulías disse...

Uma obra e tanto... maravilhoso filme, inesquecível... da "safra" de "Notorious", "spellbound" e até de "Rebecca". Maravilha o que voce fez dessa vez!!!! Já estávamos com MUITAS saudades!!!!

Daniele Moura disse...

Fernando, realmente só o Hitch mesmo pra lançar obras tão assustadoras, e o melhor: sem derramar sangue nas telas! Obrigada, espero que goste do filme!
Ricardo, fico muito feliz com o seu carinho. E que bom que você também aprecia este filme. Ainda não vi Notorious, acredita? Não sei se existe no Brasil. Vou procurar.
Um forte abraço,
Dani

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Voltou com força total, Dani. Adoro Cary Grant neste filme.
O Falcão Maltês entra de férias. Desejo um Feliz Natal e um ano de 2012 bastante proveitoso.

Até Janeiro!

O Falcão Maltês

disse...

Acredito que, se Hitchcock tivesse deixado o final original, seria fiel ao seu estilo, mas o filme não seria tão bom. Daria uma sensação de "Ah... Eu já desconfiava dele!". Mesmo assim, seria interessante ver Cary Grant como vilão, antecipando em qause 20 anos o que Hitch fez com outro ator com cara de bonzinho, Anthony Perkins.
Beijos!

Daniele Moura disse...

Concordo, Lê! Nós já desconfiávamos desde o início. Mas ele poderia mostrar o assassino de Beaky. Ele foi morto em Londres, lembra? Aí ficaria interessante, pois no final viria: "Xii, achei que o Johnny fosse o assassino, mas era outra pessoa".

Antonio, muito obrigada! Tenha boas férias! Um ótimo Natal e excelente fim de ano para você também!!
Um abraço
Dani

Rubi disse...

Não sei dizer o que é melhor neste filme, se a própria história ou o elenco. Hicthcock era um gênio! Fico feliz que esteja de volta, Dani!

Tenha um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

Até breve!

Maxx disse...

Daniele,

acabei de ler o seu comentário falando do problema com o Youtube. A coisa é muito séria mesmo. Gostaria de contar com sua ajuda para divulgar o problema e fique a vontade para dar sugestões no que fazer quanto a isso, mas acredito que se cada um começar a divulgação em sua rede alguma coisa vai acontecer. Aproveito para mandar um link que coloquei por ter muito do assunto:

http://telecinebrasil.blogspot.com/2011/12/censura-na-internet-protect-ip-act.html

Grande abç e feliz natal.

Maxx

Daniele Moura disse...

Olá, Rubi e Maxx!
Obrigada por passarem por aqui. Realmente o filme tem um casamento perfeito: a estória e o elenco.
Maxx, que bom que você me ap´´oia nisso. Imagina, no que que um cover de uma música vai afetar direitos autorais? Um absurdo. Fora que tem milhares de pessoas no youtube que fazem isso. Não há nada de errado em cantar ou tocar.
Um feliz Natal e próspero ano novo pra vcs também!
Dani

Faroeste disse...

Com alguma lamentação, pois não sou fã de Hitckcoch, esta fita eu não vi, embora algum interesse me induzisse a ve-la.
Alfred me decepcionou muitas vezes, o que me levou a ter alguma aversão a filmes seus. Quando esperava muito dele, ele reagia inversamente. Ao contrário de outras vezes, quando esperava o pior ele me surpreendia, como em Os Passaros, Vertigo e Marnie. Mas em O homem que sabia demais ele se perdeu totalmente. Não vi a primeira versão, mas da segunda só se salva Jimmy.
jurandir_lima@bol.com.br

Daniele Moura disse...

Faroeste,
ainda não vi Marnie - Confissões de uma Ladra. E tem tantos outros que preciso conhecer e outros que preciso rever. O Homem Que Sabia Demais, tentei ver a primeira versão, dos anos 30, que passou no TCM, mas o filme foi exibido muito tarde e acabei adormecendo. Pelo pouco que vi, achei uma grande promessa.
Adoro Hitch e os outros que citou também gosto, especialmente Os Pássaros(meu pai não gosta desse).
Mas e Janela Indiscreta, Sabotador, Rebecca, Sabotagem(com Sylvia Sidney), Sombra de Uma Dúvida? O que você acha destes? gostou ou não?
Um abraço
Dani