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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

ANNY ONDRA E "BLACKMAIL"

Em 1929, Anny Ondra filmou sua segunda colaboração com Alfred Hitchcock - BLACKMAIL. A primeira foi THE MANXMAN, também de 1929, que contava a história de uma mulher com um dilema: ser fiel ao namorado pescador, que viaja em busca de prosperidade e esperar por ele...ou se casar com o melhor amigo dele, Philip, um advogado com um futuro promissor. BLACKMAIL foi um sucesso em sua versão muda, porém a sonora não agradou muito ao público. mesmo assim, parece que desde o princípio o filme tinha qualidade de novidade sonora, principalmente por seus elementos de fotografia cinematográfica e muitos toques da genialidade de Hitchcock. Quase que ironicamente, a cena em que Alice White, personagem de Anny, esfaqueia o homem que tenta estuprá-la e o mata é uma sequência tão brilhante em fotografia e atuação, que não precisa de palavras. Alice e seu malfeitor estão escondidos da plateia por uma cortina no quarto, e quando ela sai de trás do pano com a faca na mão suja de sangue, nenhuma letra é necessária. Ela está de camisolinha e meias finas. Seu rosto está empreguinado de um misto de horror e apatia.

Anna Sophie Ondráková nasceu na Polônia, pequena cidade de Tarnów, em 15 de maio de 1902. Desde cedo percebeu que sua vida seria a de uma atriz, passando a infância em Praga, onde começou a atuar em peças de teatro em vários paízes da Europa, incluindo Alemanha. Aos 16 anos foi descoberta pelo diretor Carl Lamac, com quem se casou e juntos fundaram a produtora Ondra-Lamac films. O casal se divorciou e Anny se casou com o pugilista alemão Max Schmeling, em 1933. Sua carreira em filmes é mais lembrada por estes dois ótimos filmes dirigidos por Hitchcock e de fato, ela mudou para sempre o curso da carreira de seu mestre: BLACKMAIL foi o primeiro filme sonoro do diretor Inglês. Como seu sotaque europeu a impedia de alçar vôo como uma estrela de Hollywood, Anny foi acolhida na Alemanha, onde filmou quase cem trabalhos, se tornando queridinha dos europeus, seu povo. A década de 30 foi frutífera para a loira, porém o nazismo e a guerra afetaram seus planos e ela então se aposentou em 1939, fazendo apenas mais três filmes: DER GASMANN - 1941, HIMMEL, WIR ERBEN EIN SCHLOB - 1943 e SCHÖN MUB MAN SEIN, de 1951. 
Seu primeiro longa, PALIMPSEST, foi feito na Tchecoslováquia, em 1919. Um drama dirigido por Lamac depois relançado com o título de THE MISSING LETTERS. Seu processo final de filmagem teve locação na Alemanha e Áustria, porém este trabalho encontra-se perdido, como muitas produções européias desta época, a exemplo disso, a maioria dos filmes da atriz húngara Vilma Banky(1898-1991). De beleza delicada e divertida, Anny Ondra pôde trazer um pouco de frescor aos suspenses de Hitchcock. Com sua risada infantil e aparência de menina, faz acontecer os leves momentos de BLACKMAIL, como na cena em que está na casa do estuprador e acha graça de uma pintura feita pelo rapaz.
 A bela de rosto expressivo faleceu em 1987, aos 84 anos, vítima de um derrame. Viveu um longo casamento com Schmeling em Hollenstedt, embora sem filhos. 

Anny Ondra é Alice White em BLACKMAIL, 1929.

UM FLERTE PODE MUDAR A VIDA DE UMA MULHER...PARA SEMPRE.

Produzido por John Maxwell, BLACKMAIL conta a estória da jovem Alice White(Annie Ondra, dublada pela atriz Joan Barry, devido ao um forte sotaque polonês). Filha de um lojista, ela ajuda o pai no balcão, atendendo os clientes. E é nesse cenário que ela vive seus momentos de culpa e medo, onde a chantagem cria o seu clima mais característico: o suspense depois do ato. Entediada com seu namorado Frank Webber(John Longden) Alice começa a flertar com um estranho(Cyril Ritchard) com quem tinha marcado um encontro. Após um breve instante os dois conseguem se falar e ele a convida ao seu apartamento. O Artista tinha um ateliê onde morava e a garota fica rapidamente impressionada. O mais interessante nesta sequência é a modernidade de como tudo acontece, em final dos anos 20. A moça aceitar entrar na casa de um estranho, sem muito se importar com as consequências dá um quê de realismo ao cinema britânico da época, pois o esperado seria uma atitude mais recatada. Apesar de sua voz não ter sido aceita para filmar esta obra, existe um filme bem curto, que mostra a atriz Annie Ondra e Hitchcock nos bastidores. Nele, podemos ouvi-la falar algumas palavrinhas de maneira bem charmosa e simpática. Seu sotaque agradável poderia ter sido aceito até por Hollywood nos dias presentes e é incômodo saber que não estamos ouvindo a voz real da protagonista.

O Artista a convida então para posar como modelo de um de seus quadros. Um piano, um biombo cheio de figurinos e eis que a cena para o crime está pronta: o rapaz tenta estuprá-la, sem sucesso, pois ela o mata esfaqueado. E agora, como lidar com o fato de ter cometido um assassinato? Como escapar da prisão? Uma mulher seria ouvida como vítima na época? Com certeza não e é isso que é apresentado nas cenas subsequentes, onde Alice tenta esconder seu crime, com medo de passar o resto de sua vida atrás das grades. Era demasiado forte para uma moça em 1929 contar a seu namorado e a seus pais que havia sido vítima de tentativa de estupro. Pior ainda seria para ela explicar como foi parar no apartamento do criminoso. A decisão estava tomada: Não contar a ninguém o que houve e tentar conviver com isso, mesmo que dentro de si seja impossível apagar tão bruto acontecimento. O decoro do recolhimento por culpa e medo de ter a imagem denegrida publicamente parece ridículo nos dias de hoje e talvez, se BLACKMAIL fosse filmado e lançado em 2013, parte do roteiro adaptado por Hitchcock, da peça de Charles Bennett teria de ser modificado.

Voltando à sua vida de balconista, Alice se depara com algo que jamais esperava acontecer e com o que jamais deveria acontecer: alguém a viu entrando e saindo daquele prédio. Alguém sabia. Um homem sem escrúpulos, um bandido chamado Tracy(Donald Calthrop) começa a chantageá-la. Um pouco antes, a cena da faca no café da manhã é marcante e mostra o tormento e a tortura psicológica a que se encontra a personagem. Como consequência praticamente inevitável, seu namorado passa a saber que ela é culpada e apesar de ter seus primeiros sentimentos de raiva descontados em Alice, ele a ama e tenta protegê-la. É o heroi de Alfred Hitchcock se pronunciando na tela, em seu primeiro filme falado. Um cidadão detetive, lutando contra o homem que está disposto a destruir sua garota. Mas será que Alice é realmente culpada? Não é difícil imaginar como deve ter sido difícil para as audiências norte-americanas entender esta personagem feminina e mantê-la como a vítima quase heroína. Aquela que no final do filme merecia viver em paz. As atitudes que levaram-na a matar um homem estão longe de colocá-la como uma heroína romântica em tempos da Grande Depressão Econômica. Rico em detalhes e com um simbolismo cinematográfico pontuando uma das características do Mestre do Suspense, BLACKMAIL  pode ser tranquilamente o princípio para qualquer um que tenha vontade de ingressar no mundo deste aclamado diretor.






4 comentários:

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Dani, ótimo texto. Eu não tinha ideia dessa carreira cinematográfica extensa de Anny Ondra. De Blackmail eu gosto demais (me deu uma vontade de rever Hitchcock, que já vi e revi tantas vezes...). Gosto muito, também, como ele lança bem, com este filme, as bases para sua cinematografia falada. Naquele começo dos talkies os filmes viraram praticamente teatro filmado. Hitch aproveita bem dos silents para montar uma história visual. Nunca tinha pensado em quanto era "moderna" a história. Realmente a mocinha não era heroína tradicional, e é impressionante que o diretor tenha construído empatia do público para com ela.

Bjinhos e até logo
Dani

Danian Dare disse...

Sutilezas Hitchcokianas, já um mestre em revelar sem mostrar. Não conhecia a Anny Ondra, quanto ao filme não é possível lembrar de tantos do Hitch e de outros, até pelo fato de nunca tê-lo assistido. Raridades mesmo para qualquer cinéfilo. Hoje é possível ver alguma coisa através da internet. Parabéns pela postagem de volta, não é só você que esteve parada com o blog, a maioria tem postado pouco ou nada. Bye e até a próxima.


PS. Acho que deveria publicar aqui o material de suas preciosidades cinematográfica, as suas revista.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Preciso ver esse filme...

http://ofalcaomaltes.com/

Daniele Rodrigues de Moura disse...

Olá, pessoal!
Que bom que vcs gostaram do texto. Fico feliz: estou tentando recuperar aos poucos a minha escrita no blog, já que meus problemas pessoais me causaram tão mal a ponto de me afastar, de não conseguir escrever mais. E quando a gente ama escrever e dividir as informações com as pessoas, isso é definitivamente muito triste.
Quero que saiba também que aos poucos estou tentando voltar a visitar os sites de vcs. Portanto, não fiquem tristes comigo.
Um abraço fraterno,
Dani.