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terça-feira, 5 de novembro de 2013

IMITAÇÃO DA VIDA 1959


Uma das características atrativas do gênero melodrama é a sua capacidade de levar para as telas o ser humano com suas fragilidades. Aquelas mais profundas, de caráter quase secreto. IMITAÇÃO DA VIDA não foge a este detalhe, mas vai além, ao colocar  à disposição do público um tema tão delicado: o racismo. Nos anos 50, o povo norte-americano continuava a menosprezar os afrodescendentes, especialmente em Hollywood, onde grandes atores e atrizes eram sempre escalados como empregados ou escravos em filmes de época. Nesta segunda versão do clássico de 1934, dirigido por Douglas Sirk, Juanita Moore é uma empregada, quase uma governanta, não fugindo muito ao costume da época, porém sua personagem é ricamente explorada em vários tons humanos, o que proporciona à atriz mostrar o seu incrível talento. O indivíduo machucado e abatido, como consequência de um destino cruel: ser negligenciada pela própria filha, interpretada por Susan Kohner. O roteiro é assinado por Eleanor Griffin e Allan Scott. Juanita Moore e Susan Kohner foram indicadas ao Acedemy Awards e Golden Globe por suas brilhantes performances como coadjuvantes. Susan levou o Golden Globe. Outro tópico forte e escandaloso para 1959 foi o fato de mãe e filha se apaixonarem pelo mesmo homem, Steve Archer(John Gavin). Em disputa pelo amor do rapaz, Susie se revolta. Para o alívio geral da sociedade machista daquela época, a mãe abre mão do seu amor, a fim de querer ver a felicidade da filha.


O estigma de sofrimento atinge não só Annie Johnson(Moore), mas também Lora Meredith(Lana Turner), mãe solteira que decide lutar por sua carreira de atriz. As duas se conhecem casualmente e o que a princípio poderia parecer um acordo mútuo de patrão e subordinado, se transforma em uma história de amizade verdadeira. A bela Lana se encontrava em uma fase bem difícil em sua carreira antes de começar as filmagens deste trabalho. Já não pertencia mais à MGM, o estúdio que a abraçou e a projetou como estrela mundial. L.B. Mayer, que fazia todas as suas vontades, já havia falecido. Além de ser incerto seu futuro no final daquela década, sua vida pessoal era igualmente marcada por incertezas e um melodrama que já daria um filme por si só. Seu marido Johnny Stompanato tinha se aproximado dela sob falso nome, passado desconhecido e presente mentiroso. Só depois de casados Turner descobriu que Johnny fazia parte do mundo da máfia. Homem violento, ameaçou mutilar seu rosto caso ela tentasse se separar dele. No cinema, Lana Turner era a mulher fatal que levava os homens a cometerem os piores erros. Na vida real era ela quem sofria por suas escolhas e casamentos precipitados. Stompanato lhe dava surras terríveis e ameaçava sua vida todo o tempo. O inferno havia se instalado em sua vida, fazendo desta situação ainda mais grave do que os dramas que interpretou desde os anos 40.

Em IMITAÇÃO DA VIDA  as relações humanas e seus laços profundos, como a maternidade e a amizade são o centro de toda a estória. Os figurinos belíssimos usados por Lana(criados pelo lendário Jean Louis) e a vida glamourosa que sua personagem passa a viver quando se torna um grande nome do teatro são meras ilustrações. Como num lindo plano de fundo, a riqueza que Lora ostenta não modifica em nada a tristeza de Annie com Sarah Jane, que se recusa a ser negra. Já que ela pode se passar por branca e ser aceita na sociedade da maneira que deseja, esconde a mãe e suas origens e o mais triste: mente para ela mesma. Não há nada mais cruel do que não ser sincero com sua própria pessoa, pois seja o que for, jamais conseguirá escapar do seu eu. Annie, a mãe negra desprezada, é uma pedra em seu sapato. Um estorvo a qual Sarah quer se livrar a todo o custo. Finge não ter mãe, maltrata a boa mulher, que tem tanto amor para lhe dar. Amor que chega a doer no espectador mais sensível, afinal, pode existir pungência maior do que amar um filho e não ser amada por ele? Por outro lado, Lora e sua filha Susie(a meiga Sandra Dee) também enfrentam crise em sua relação. A menina adolescente reclama  não ser amada pela mãe e demanda atenção desta, sempre ocupada com seu trabalho. Acontece que para quem está na plateia é quase impossível não perceber o sentimento bonito que Lora tem por Susie, assim como a doçura e pureza de ambas. Cheryl Crane, nos bastidores, ansiava pela atenção de sua mãe Lana e quase nunca conseguia sua companhia, já que a atriz quando não estava nos sets de filmagem, se encontrava divulgando os filmes pelos tapetes vermelhos ou então viajando em lua de mel com seus amores.

Como uma legítima imitação da vida, Lora e Lana dividiam os mesmos problemas de maternidade, assim como dificuldade em relações amorosas. Personagem e atriz sempre comprometidas com suas carreiras, não eram capazes de acertar com os homens e eram cegas no que dizia respeito à suas filhas. As duas podiam jurar que estavam dando amor para suas meninas e que sempre deram, mas a falta de atenção e de tempo, faziam das duas adolescentes, Susie e Cheryl, garotas infelizes e apaixonadas por suas mães. Uma paixão quase não correspondida. Os personagens do filme viviam a arte do desencontro, sendo o relacionamento de Lora e Annie o único sentimento cem por cento único do início ao fim desta obra. A fidelidade ao amigo, não importando cor da pele ou raça, pontua o roteiro como se quisesse quebrar todos os preconceitos. O ponto de equilíbrio na vida das duas mulheres. A cena em que Lora chora a morte de Annie é desesperadora. Construída em beleza e realismo, já que Lana, a atriz, sofria por sua vida pessoal e colocou todo o sentimento forte que pôde neste personagem .Como música de fundo, a voz dilacerante de Mahalia Jackson, cantando "Trouble of the World", em uma dos momentos mais emocionantes do filme: o funeral de Annie, seguido do desespero de Sarah Jane, arrependida, enfim.


4 comentários:

disse...

Dani, que texto excelente!
Às vezes é ao mesmo tempo chocante e interessante como os dramas das vidas pessoais dos atores são refletidos nos personagens.
Beijos!

Daniele Rodrigues de Moura disse...

Que bom que gostou, Lê!
É sempre muito ter vc por aqui!!
Um abraço,
Dani

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Oi, Dani!

Assino embaixo do que diz a Lê!
Seu texto fez renascer em mim o desejo de ver esse filme, acendido primeiro quando eu li "All that Hollywood allows", análise desses melodramas a partir de seu panorama histórico. É mesmo chocante o preconceito racial da América do Norte. Claro, mesmo por aqui e até hoje ele existe, mas por lá existia um mecanismo de exclusão dos negros muito mais efetivo. Interessante também é o trabalho que o filme faz com as relações humanas. Além da questão racial, estão em jogo aqui as relações humanas, sobretudo entre mães e filhos. Você aproxima Lana e sua personagem, acredito que com bastante propriedade. Eu me lembro d'outro trabalho distinto em que a coisa análoga se coloca - o conto "A caolha", de Júlia Lopes de Almeida, também tematiza o filho que esconde a mãe, e matiza a questão, de modo a mostrar como era duro para ambos. A culpa no fundo é da sociedd excludente - só que como nós somos a sociedade, a culpa é também nossa.
Ótimo vc ter levantado essas questões. Parabéns pelo texto!

Bjocas

Daniele Rodrigues de Moura disse...

Oi, Dani!!
Fico muito contente que o texto tenha agradado! Realmente nós temos culpa também, e a sociedade o personagem de Susan Kohner uma vilá, na ficção, mas também existe a questão do carácter, não é? Por exemplo, no filme PINKY, de 1949, com a Jeanne Crain, a personagem tenta lutar contra sua própria raça, já que podia se passar por branca, mas ao longo da história revê seus conceitos e no final descobre que ama demais seu povoado e suas origens. O filme é maravilhoso. Assista se ainda não viu! Existem pessoas que mesmo pressionadas pela sociedade ocidental cruel resistem a ela e escolhem sentir orgulho de si e de sua gente. Isso é maravilhoso! É o outro lado da moeda. Mas é claro que o seu ponto de vista é uma realidade e acontece mesmo.
Muito obrigada pela vista!
Um abraço
Dani.