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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Dos livros para Hollywood

Vários clássicos da Literatura ganharam versões para o cinema. Aclamadas por crítica e público, os exemplos abaixo tiveram refilmagens - em alguns casos não tão bem-sucedidas do que os originais. É impressionante o que um filme pode fazer na vida de uma pessoa. Alguém pode sair do cinema totalmente encantada pela história contada e passar a ler aquele determinado escritor. Foi o que aconteceu comigo com Madame Bovary, de Gustave Flaubert, romance que escandalizou a França do século 19, levando o autor para o banco dos réus. O livro que conta a história de uma camponesa entediada com seu casamento, começa a fantasiar e colocar em prática situações como adultério e dívidas foi levado às telas pela primeira vez em 1949.

"Madame Bovary", dirigido por Vincente Minnelli, conta com a bela composição de personagem de Jennifer Jones. Toda a angústia e ansiedade de Emma é transmitida ao público através de sua performance. É possível ver toda a sede de paixão que a personagem tinha, acrescentando um nítido distúrbio(muito presente em personagens de Jones). Impossível não observar também a presença incrível do ator Van Heflin como o marido "comum", doutor Charles Bovary, que dentro de sua mente comum e de sua vida comum, jamais conseguiu entender a cabeça da esposa. Atentos também à ótima narração de James Mason, como Gustave Flaubert, que começa o filme na côrte. Altamente recomendável.

"Anna Karenina", de Tolstói. Romance publicado entre 1875 e 1877.
Este incrível clássico russo da literatura teve 4 versões para cinema, sendo a última recente onde Anna é vivida pela atriz francesa Sophie Marceau e a 1ª filmada em 1927 com o título de "Love". Mas são suas 2 primeiras versões que até hoje arrancam as mais variadas emoções de platéia e crítica. O livro permanece atual por vários pontos. Um dos mais importantes é a discussão da família, um assunto sempre debatido, por várias gerações, cada uma a seu modo. A outra é a questão do filho nos casamentos falidos, e é neste trecho da obra que as opiniões se chocam: em que posição uma criança deve ficar quando um casamento não dá certo? E o papel da mãe e mulher na sociedade da época, que não dava direito à adúlteras de verem seus filhos, caso abandonassem o lar. Em 1935, o diretor Clarence Brown adaptou o romance às telas novamente com Greta garbo, que havia interpretado a personagem na produção muda de 1927, "Love". Com roteiro de Salka Viertel e produção de David Selznick, este filme honra a todos os apreciadores de roteiro adaptado e também aos fãs de Garbo, com uma belíssima prova de seu talento para o drama. O criador de cenários Cedric Gibbons, em sua época de ouro desde o cinema mudo faz um trabalho magnífico de interiores, com todo o luxo a que levou fama a MGM. Um gênio na arte da criação, o trabalho de Gibbons aparece imortalizado neste filme como na cena do grande baile, onde os convidados(atores principais e muitos figurantes) dançam e criam uma atmosfera de grandeza e ostentação inatingível. Outro grande nome neste filme é o estilista Adrian, responsável por vestir Garbo na Metro. É dele os fabulosos vestidos que a atriz usa. Uma cena de destaque é o reencontro de Anna e seu filho Sergei(vivido por Freddie Bartholomew). A maneira como Garbo criou aquela cena, beijando o rosto do menino repetidas vezes com tanta meiquice é muito tocante.
                                                 Garbo em "Anna Karenina"

"Anna Karenina", de 1948. É considerada a melhor versão para cinema da obra de Tolstói. Aqui, o diretor Julien Duvivier tem Vivien Leigh como Anna e retrata com mais detalhes sua história com Conde Vronky e sua frustrada tentativa de ficar com seu filho. Apesar de muito respeitada, a versão com Greta garbo deu muito espaço à personagem Kitty(Maureen O' Sullivan e mãe de Mia farrow). Assim, perdeu-se o foco principal que é a história de adultério de Anna e o dilema terrível em que vive ao ter que deixar o menino. Além disso, na versão de Julien Duvivier é retratado uma prática espírita que estava se tornado muito comum no século 19: as reuniões espíritas em mesas girantes. Foi a partir destas reuniões que começou o interesse do público europeu nos estudos de Allan Kardec e a doutrina espírita. Vivien traz uma personagem mais delicada e feminina e ainda mais fragilizada. Nesta versão os figurinos foram assinados por Cecil Beaton, um espetáculo à parte a esta refilmagem mais realista do que a de 1935. Feita em Londres, sem os censores americanos prontos para fazer cortes, é bem interessante o final, quando Vronsky sabe da morte de Anna e não demonstra nenhuma reação afetuosa por ela. É uma história de amor onde um se deu demais, neste caso a mulher, justamente a que era vítima de uma sociedade hipócrita e liderada pelos homens.
    Vivien Leigh em "Anna Karenina"

9 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Gostei do post, Dani. Gosto muito da versão de Minnelli de MADAME BOVARY (amo Jennifer Jones). As de Renoir e Chabrol também são muito boas. ANNA KARENINA de Brown (publiquei post recente sobre ele) é magnífico, principalmente pelo trio de atores: Garbo-March-Rathbone. Vi o filme da Vivien Leigh há muito tempo, não lembro bem. Vou revê-lo. Mas duvido que seja a melhor versão de Tolstoi no cinema. Duvivier era bem mediano.
Beijos.

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Cinema Clássico disse...

Oi, Antonio!
Eu prefiro a versão do Brown, à propósito, vi seu post sobre ele. Muito bom! A versão de Duvivier traz mais a história de Anna, Vronsky e a paixão que ela tinha pelo filho é mostrada através das cenas em que Vivien tenta vê-lo. Já Garbo demonstra este amor através de seus encontros com o menino, que aliás, sempre me emocionam. Ela era uma excelente atriz! Tb tem uma cena em que a Anna de Vivien está muito bem, quando discute com seu marido(Ralph Richardson) e diz que ele jamais tirará o filho dela. Ela chora, passa uma emoção muito grande. Aliás, eu sou suspeita, pois gosto muito dela. Pelo que vi temos mais uma coisa em comum: Jennifer Jones! Sua Madame Bovary é excelente.
Um abraço, Dani

Tertúlias... disse...

Sorry... mas na versao de leigh o filme acaba com a morte dela--- Ninguém veu Vronsky recebendo a notíca da morte dela---

Outro detalhe: a " beijacao" de Garbo com Freddey Bartholomew é considerada até por alguns críticos como "semi-incestuosa", sabia???

Cinema Clássico disse...

Tertúlias, o problema dos críticos é que eles por várias vezes exageram muito. Eu sei disso pois também sou atriz. Sinceramente, eu nunca percebi nada incestuoso nas cenas de Garbo e Freddy. Não existe nada de incesto em beijos de mãe com seus filhos e dá pra ver que ela beija o rosto do menino com o carinho materno. É lindo. Já na versão com Leigh, o fato de terem terminado o filme com a morte de Anna é exatamente a linguagem cinematográfica que Duvivier usou para mostrar ao público que Vronsky não estava nem aí pra ela. O que eu achei muito bom e realista, afinal de contas, ele já tinha dado o fora nela mesmo. Ela largou tudo por ele, mas ele não. No final a sociedade julgou a mulher, como sempre fez.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Caríssima, o seu blog acaba de ser premiado com o SELO DE QUALIDADE "PROJETO CRÉATIVITÉ".
Venha pegar o seu selo!
Está tudo no post "Selo de Qualidade Para O Falcão Maltês".
Abraço bom,

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Olá, Dani, ando pensando numa conexão de comentários entre blogueiros que admiramos. Seria uma forma de incentivar o intercâmbio de idéias, favorecendo a blogsfera cinéfila. A cada post seu eu faria um comentário, e vice-versa. Sempre com sinceridade. O que acha? Vamos iniciar?
Abraço bom,

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Cinema Clássico disse...

Olá, Antonio,
seria ótimo! Uma forma de união entre nós , que gostamos do assunto e mais uma forma de incentivo. Vc é um cara muito bacana!
Um abraço,
Dani

Sabrina Cosiuc disse...

Não assisti à versão com Greta,mas quanto ao que vc disse que o filme dá muita enfase à personagem Kitty,bem,no livro,o personagem Liêvin tem tanto ou maior destaque do que o personagem Ana Karenina.

Daniele Moura disse...

Sabrina, Liêven é um personagem muito interessante. Gostaria que o filme tivesse mostrado mais sobre ele. Não quero parecer maldosa, mas na época de Anna Karenina, Maureen O'Sullivan estava com uma carreira em formação. Era uma mocinha bonitinha, mas sua Kitty é tão melosa que enjôa.