PROBLEMAS DE PRODUÇÃO
Durante a sua produção, "Easter Parade" teve alguns problemas. Originalmente, o papel de Nadine Halle havia sido escrito para a bailarina clássica Cyd Charisse, mas esta rompeu os ligamentos do joelho e ficaria bastante tempo sem dançar. O elenco então foi modificado e Nadine foi interpretada por Ann Miller. Finalmente a oportunidade dela havia chegado. Além de sair da obscuridade dos filmes "B" da Columbia, ela agora realizaria o sonho de dançar com Fred Astaire. Quem vê o número "Shaking The Blues Away", com uma maravilhosa Ann sapateando e girando como se a qualquer momento fosse levantar vôo do palco, não imagina o quanto ela sofreu para filmá-lo. Ela tinha acabado de se separar de um marido violento que a atirou do alto de uma escada, grávida de 9 meses. Obviamente, além de perder a criança, a bailarina ficou toda machucada e teve que fazer os números de "Easter Parade" com um colete. É um dos momentos mágicos onde a arte supera todos os problemas. Um verdadeiro artista não desiste de seus objetivos. E com Ann Miller não foi diferente. Vincente Minnelli estava cotado para ser o diretor, porém o modo como queria conduzir o enredo não agradou Arthur Freed. Ele achava que "Desfile de Páscoa" tinha que ser suave e alegre. Quando Charles Walters entrou no lugar de Minnelli, foi adicionado aos roteiristas antes contratados Frances Goodrich e Albert Hackett, o nome de Sidney Sheldon. O papel de Don Hewes estava reservado para Gene Kelly, que já havia contracenado com Judy em "For Me and My Gal"(1942). Antes de começar as filmagens, Kelly se acidentou em sua casa enquanto brincava com amigos e parentes. Era habitual na casa do ator e bailarino fazer brincadeiras atléticas como correr um atrás do outro pelos cômodos da casa, além de jogar Vôlei e Futebol. A notícia de que Gene estaria impossibilitado de filmar alarmou o produtor Arthur Freed. Mas não por muito tempo...
UM SENHOR PARA UMA SENHORITA
"Desfile de Páscoa" seria o grande musical daquele ano. Era o que Arthur Freed pensava, com entusiasmo. Logo surgiu a idéia de substituir Gene Kelly por Fred Astaire. Dono de uma longa carreira em Hollywood, ele começou nos palcos de Vaudeville com sua irmã Adelle, dançando, cantando e atuando. Na década seguinte, o talento de Fred na dança estremeceu as audiências de cinema, especialmente por sua parceria com Ginger Rogers, em sucessos como "Shall We Dance", "A Alegre Divorciada", "O Picolino", dentre outros. A estrela dele era reconhecidíssima e ele era extremamente respeitado, mas isso não deixou de impedir que uma preocupação viesse à cabeça da equipe de produção: Fred Astaire já era um senhor, já havia se aposentado e se dedicava mais à família, sendo que Judy Garland era uma menina de 26 anos. Será que esse casal soaria estranho? Será que o público aceitaria? Bem, sabemos que o filme foi e é até hoje um sucesso. Um dos maiores musicais da história do cinema. A química entre Fred e Judy é inegável. Engraçados, talentosos, apaixonados pelo que faziam. Não poderia dar errado.
OS NÚMEROS MUSICAIS
"Desfile de Páscoa" é luxuoso, exatamente como pedia cada musical da MGM, com arrebatadores 17 números musicais. Uma inovação na época. No entanto, tem seus momentos em que a simplicidade é mais e isso é mostrado logo no início do filme. Don(Astaire) sai para procurar um chapéu para sua amada Nadine(Miller), a fim de ir com ela ao desfile de Páscoa. Ele anda pelas ruas despreocupado, assobiando e desejando "boa Páscoa" a todos que por ele passam. Na loja, belas moças apresentam os chapéus para ele em forma de canção.
Escolhido o chapéu, ele entra em uma loja de brinquedos. Se encanta com um coelho de pelúcia cobiçado por um menino. Decidido a convencer o garoto a desistir do coelho e comprar uma bateria, ele começa a cantar "Drum Crazy". A habilidade do personagem com os tambores deixa o menino encantado e, é claro, também pelo seu sapateado. A brincadeira de Astaire neste número é genial: ele dança usando a bateria com os pés, brinca com outros instrumentos, sobe nos balcões. "Drum Crazy" é simples e inteligente. Incrível como um artista pode pegar uma loja de brinquedos como cenário e colocar a sua genialidade ali, transformando tudo, tão descompromissado, divertido, sapateador, tocador de bateria. "I'm drum crazy, yes, I'm".
Outra mistura de simplicidade e beleza trouxe o romance. É a belíssima melodia "It Only Happens When I Dance With You". Tema de amor de Don e Nadine, são os dois que dançam a música pela 1ª vez(ela é tocada 3 vezes no filme), com um apaixonado Astaire suavemente versando "I have been dancing with dozens of others the whole night through/but the thrill that comes with spring/when anything can happen/that only happens with you"("Eu tenho dançado com tantas outras pela noite inteira/mas a emoção que vem com a primavera/Quando tudo pode acontecer/Isso só acontece com vocẽ"). Na segunda vez, o instrumental, com o casal dançando para o público do Ziegfeld Follies. Pela última vez, "It Only Happens..." é cantado ao piano por Hannah Brown(Judy), declarando seu amor por Don.
Artista e palco se encontram sozinhos em números fantásticos como "Shaking The Blues Away", por Ann Miller, a sequência de audição de Hannah e Hewes no Ziegfeld Theater com "Ragtime Violin", "I Love a Piano", "Alabama Choo Choo" e outras, mas engenhoso é "A Couple of Swells": a dupla vestida de mendigos, numa coreografia e construção cênica divertidas, cheias de humor, num cenário montado com novamente a simplicidade e inteligência - no palco, os atores estão na rua, onde o fundo se movimenta como se eles estivessem andando de verdade. Foi Judy quem inspirou Fred a intensificar a imagem do mendigo, sujando os dentes e o rosto de graxa e empoeirando bastante o paletó. Paletó este que ela fez questão que fosse bem acima do seu tamanho, dando ainda mais ênfase ao desleixo de um habitante de rua.
Uma curiosidade: ainda no início do filme, quando Don tenta transformar Hannah em Nadine, eles executam um número de dança em que ela está coberta de plumas em seu vestido. A cada passo mal dado pela desastrada aspirante a artista, as plumas entram pela boca de Don, que se sente bem desconfortável. Dizem que isto foi uma sátira para afirmar o horror que Fred Astaire tinha pelos vestidos que sua parceira Ginger Rogers usava. Eles os chamava de "cafona e horrorosos" e os dois jamais se entenderam fora de cena.
O luxo combinado com genialidade são vistos em "The Girl On a magazine Cover" e "Stepping Out With My Baby". É maravilhoso ver, no 1º número citado destes, modelos imóveis envoltas em um quadrado, cada uma, com logos de capas de revistas como "Vogue", "Vanity Fair", Harper's Bazaar", dentre outras. O curioso é que, todas as revistas mostradas ainda estão em circulação. O público olha aquele espetáculo e acredita realmente que é uma capa de revista. Um tenor canta a música e de repente surge Ann Miller com os bailarinos, com competência, magia e toda a sofisticação que o número pedia.
É em "steppin' Out With My Baby", um dos melhores números do filme, que podemos ver toda a grandiosidade do bailarino Fred Astaire. Com seu paletó branco e bengala, impecável, ele se transpõe da tela, como a própria dança. Suas manobras e passos precisos e elegantes conduzem a música em que ele canta, sempre com suavidade, exalando a arte dos movimentos em sua forma maior.
Em um momento excitante, a câmera lenta em Fred e normal nos bailarinos atrás dele nos faz pensar em como os diretores de arte eram realmente excelentes, sem nenhum recurso de computação gráfica ou montagem. Através dessa idéia da cãmera lenta, saboreamos cada passo, cada gesto, a maneira atlética como jogava sua bengala pra lá e pra cá. Imperdível.
Judy canta sozinha em "Better Luck Next Time" e com uma banda e um pequeno público, no início de "Desfile de Páscoa", a primorosa "Michigan", quando tenta mostrar a Don, pela 1ª vez, que tinha talento. Inútil. Ele já tinha ido embora.
A música que é título do filme é apresentada no seu encerramento: "Easter Parade". O reconciliamento de Hannah e Don e seu tão esperado desfile de Páscoa, na 5ª Avenida, agora com Hannah reconhecida, sem viver à sombra de Nadine. "I can't hardly wait to keep our date/this lovely easter morning/and my heart beat fast as i came to the door"("Eu mal posso esperar em te encontrar nesta linda manhã de Páscoa/E meu coração acelera enquanto eu me aproximo da porta"). "Mr. Monotony" foi o número deletado do filme. Garland está cintilante, com um tuxedo preto justo e um chapéu, no que viria a apresentar em "Casa, Comida e Carinho", com a música "Get Happy". Porém só a parte de cima do tuxedo não era habitual das mulheres em 1912, onde a história se passa, e foi decidido que aquele figurino ficaria escandaloso demais e não combinaria com o resto do filme. Uma pena, pois ela está ótima e dançando muito bem. It's the Garland's touch!
Esta é a dica de Cinema Clássico para a Páscoa. Se puderem assistam a este incomparável filme. Ele é imperdível!!
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| Hannah e Hewes audicionam para Ziegfeld! |
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| Mr.Monotony: o número que ficou fora do filme |










