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terça-feira, 19 de julho de 2011

LEAVE HER TO HEAVEN, 1945

É humanamente impossível, para a nossa geração, imaginar o impacto que AMAR FOI MINHA RUÍNA teve na tela grande. Tudo neste filme é grandioso: o roteiro muito bem escrito criado do livro de Ben Ames Williams, o ótimo elenco, a trilha sonora, mas...tentem imaginar a beleza de Gene Tierney no grande ecran. Difícil, não? Os close-ups de seu rosto belíssimo com os olhos azul-céu, azul-mar devem ter causado uma reação extraordinária no público que viveu aquela época. Nós, da era dvd que amamos o cinema clássico invejamos aqueles que tiveram a oportunidade de ver os clássicos em technicolor, ou melhor: a magia do technicolor, com aquelas cores vivas, transformando os filmes, já obras da sétima arte, em verdadeiras pinturas vivas.
Com direção de John Stahl, este drama ou suspense, como queiram chamar, traz Cornel Wilde e Jeanne Crain como dois personagens inocentes, feitos um para o outro, porém tardiamente se descobriu o fato, depois de terem sido por anos vítimas da crueldade da psicopata Ellen Berent(Tierney). Rita Hayworth foi a primeira atriz pensada para Ellen, mas recusou. Gene declararia muitos anos mais tarde, que na época em que foi lhe oferecido papel, duvidou em aceitá-lo, pois não acreditava ser capaz de se tornar tal "monstro" nas telas. Sim, Ellen era uma espécie de monstro, como se disse na cena do julgamento. Sua psicopatia envolvia os laços doentios que mantinha com seu pai, não querendo dividí-lo com a família. Ele era seu ídolo e era dela, de mais ninguém. A história é contada inteiramente através da psicologia e enquanto vemos o filme, entramos dentro da mente de Ellen, tão egoísta e possessiva, que se torna doente, incapaz de fazer amigos, por simplesmente não suportar a presença das pessoas perto dos poucos a quem ama. Ela não é nem um pouco infantil, e sim maquiavélica e fria. Acompanhamos o sofrimento de Ruth(Crain), a irmã adotiva, da mãe de Ellen, Ms Berent(elegantemente interpretada por Mary Philips) e de Glen(Ray Collins). Todos estes membros da família conhecedores do mal que é ter Ellen em seu convívio. Vincent Price, que já estava em sua 2ª parceria com Tierney depois de LAURA(1944), é Russel Quinton, o advogado trocado como se fosse uma peça de roupa, logo assim que Richard Harland(Wilde) entra na vida da noiva. Mais tarde Price voltaria a trabalhar com a atriz em Dragonwyck(1946).
Richard e Ellen se conhecem no trem
Esta incrível produção de Darryl Zanuck e William Backer, conta com uma das trilhas sonoras mais marcantes do cinema, composta pelo mestre Alfred Newman. O mesmo tema é tocado nos pontos altos de suspense do filme, como a cena da escada, quando Ellen chega ao ponto de sentir ciúmes do próprio filho e grávida, se atira do alto, como também nos momentos de transição de tempo. O brilhantismo de Newman não fez a música soar repetitiva ou cansativa, pois é trabalhada em vários tons, de acordo com a situação da história. Natalie Kalmus e Richard Mueller assinam a direção de technicolor, ou seja: foram eles os responsáveis pela belíssima pintura que vemos do início ao fim. O maquiador Ben Nye seguiu à risca os padrões de maquiagem dos anos 40: muito batom vermelho, um pouco de blush e olhos mais neutros com rímel e deixou todas as atrizes do filme ainda mais bonitas. Uma década mais tarde, Ben Nye teria em seu hall da Fox estrelas como Marilyn Monroe. Sem dúvidas um maquiador que fez História. Gene Tierney desfila com seu personagem roupas belíssimas e diversificadas feitas por Kay Nelson(de ALUZ É PARA TODOS e DE ILUSÃO TAMBÉM SE VIVE). Atenção para a belíssima casa de praia, uma das propriedades do casal(a última em que se dá a história dos dois), decorada por Thomas Little.
Curiosidade: a cena da escada inspiraria mais tarde Gilberto Braga em Vale Tudo, novela de 1988

O ciúme doentio de Ellen destrói sua vida e a de todos os que estão à sua volta, mas ela não percebe. Nem o irmão de Richard, Danny(Darryl Hickman) escapa de seus planos maldosos, com a única intenção de manter o marido ao seu lado. Aos poucos o escritor começa a sentir que ter se casado com Ellen foi o maior erro que cometeu em sua vida. O fato é que, se Ellen é sozinha, todos que convivem com ela aos poucos vão se tornando sós também. Apesar de se sentir amedrontada com o caráter e a dificuldade do personagem, Gene Tierney aceitou o desafio, mergullhou fundo e o resultado foi o que ela sonhava desde que estreou no cinema: o reconhecimento como atriz através de uma indicação ao Oscar. Perdeu para Joan Crawford, em ALMA EM SUPLÍCIO. A história deste filme é atemporal e assim são seus personagens. AMAR FOI MINHA RUÍNA  é incansavelmente belo, com um leve toque do macabro e para sempre marcante.
Um passeio pelo rio...
Richard com a família Berent: Ellen, Ruth, Ms.Berent e Glenn

"Forgive me. I love you so much I can't barely share you with anybody"

15 comentários:

M. disse...

Realmente, um excelente filme. Pena ter perdido o Oscar para Joan.

Daniele Moura disse...

M,
eu também acho. A personagem de Gene era muito mais complexa que a de Joan e ela conseguiu fazer muito bem. Merecia.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Um melodrama perfeito. Nem mesmo os insossos Cornel Wilde e Jeanne Crain conseguem desequilibrá-lo. A Gene tá perfeita, assustadora. A cena do lago ou quando ela se joga da escada... Ualll!!! Que vilã!

O Falcão Maltês

Daniele Moura disse...

Antonio, vc sabe que eu sou Tierneyana, não é? rsrsrs!
Achei que para o peso de Richard Harland Cornell Wilde estava abaixo, sim. Sempre que vejo este filme percebo isso. Mas até que para o perfil da personagem de jeanne Crain, a boa moça, de família,inocente, que se apaixona pelo marido da irmã, a estabilidade da atriz não prejudicou muito a trama.
Gene está assustadora mesmo. É incrível.Aliás, eu me lembrei do filme quando vi a sua série de vilões. Vc não se importa, né? É que há muito tempo eu quero colocar algo sobre este filme. E vai ter Laura tb, em breve...

Ricardo disse...

Um dos meus filmes preiletos. Um filme noir em cores. Um monstro no rosto de um anjo...
Nao esquecao please de Vincent Price...
Mas eu sei, Gene "steal the show". Ia fazer uma postagem um dia desses sobre o filme- agora indicarei a sua, OK? Beijos
Ricardo

Faroeste disse...

O termo; Amar Foi Minha Ruina é "incansavelmente belo", é um verdadeiro achado e uma colocação acima de adequada a este filme.
Parabens, Dani. Agora vou dizer para ti uma coisa; Amar Foi minha Ruina é um filme tão importante para mim, que acabo de mandar buscar uma cópia aí em SP e cópia que acabou de chegar.
E para aqueles que jamais viram a esta pelicula eu recomendo correrem em busca de uma forma de conhece-la, pois se trata de alguma coisa muito fora dos padrões de filmes comuns. É um filme integralmente lindo, com uma fotografia invejável, um elenco marcante e super profissional, uma direção precisa e bem ajustada ao tema e texto.E o conjunto final resultou numa perfeita Obra de Arte.
jurandir_lima@bol.com.br

Daniele Moura disse...

Pessoas, descobri que o termo LEAVE HER TO HEAVEN é da peça de Shakespeare, HAMLET.
Ricardo, obrigada pela generosidade e principalmente por passar por aqui. Já estava sentindo falta dos seus comentários.
Faroeste, com certeza você fez uma excelente compra. Me lembro quando o meu chegou aqui em casa, a felicidade que fiquei ao vê-lo. Não sabia nada do filme, a não ser os trechos do documentário sobre Gene, que veio na edição de LAURA. E até hoje não me canso de revê-lo.

Darci Fonseca disse...

Oi, Dani, que alegria ver seus comentários. Tenho 66 e também não vi esse filme em tela grande. Mas ainda bem que os televisores cresceram para poder comportar toda beleza de Gene nesse melodrama. Êta mulherzinha maldosa, heim!!! O Oscar da Joan foi para tentar levantar sua carreira que andava por baixo.

Maxx disse...

Dani, obrigado por visitar o TeleCineBrasil. Não sei se vc chegou a ver as informações postadas no filme Limite do Mário Peixoto de 1931 ( http://telecinebrasil.blogspot.com/2011/05/unico-filme-concluido-do-diretor.html ) no que se refere a lei de direitos autorais, mas é que algumas pessoas tiveram problemas com suas contas por disponibilizar esse filme. Ocorre que de acordo com nossa lei o filme é de domínio público. Peço que fique alerta. Se meu blog por acaso sumir é sinal que houve descumprimento sim, mas por parte da Google, assim, estou pedindo a todos que passem essas informações em defesa do nosso direito de assistir filmes de domínio público sem a ameaça de perder a conta. Mais detalhes inclusive quanto ao texto da lei estão no blog.
E finalmente, é sempre um grande prazer passar por aqui e ler seus textos. Você, assim como eu, sempre "desenterra" rsrs filmes/personagens/pessoas que ajudaram o cinema a se tornar uma grande arte.
Grande abraço e bons filmes.
Maxx.

Daniele Moura disse...

Oi, Maxx! Eu vi, sim. Este filme "Limite", é uma obra-prima brasileira. Espero que nada aconteça com o seu blog.
Voltando ao assunto LEAVE HER TO HEAVEN, uma coisa que eu esqueci completamente de comentar no texto, mas que achei muito estranho foi a cena do leito de morte. Pra mim, a única parte ruim na atuação da gene foi aquela: quem toma ácido fica num desespero que não se aguenta parado. O ácido corrói a pessoa por dentro(pra quem o toma, é claro). O indivíduo esperneia, berra, vomita, pois o organismo tenta expulsar o veneno do corpo. Na cena, ela permanece parada na cama, só com a boca aberta, como se estivesse com uma mera doença e não é assim. Ela deveria ter feito muito mais. Lembram de quando Jennifer Jones interpretou a cena em que Madame Bovary está no leito, também por ácido? O caminho é aquele.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Olá, Dani, venha participar no meu blog de um despretensioso teste de conhecimentos cinematográficos. Começo com NICHOLAS RAY (Juventude Transviada). O vencedor leva DVDs clássicos.
Abração,

O Falcão Maltês

Rubi disse...

Poxa vida; há tempos que não passava por aqui. E gosto tanto das suas postagens; por vezes, uso teu blog para pesquisar sobre filmes e/ou artistas.
Este eu não conhecia, mas agora mesmo vou aproveitar para procurar, e claro, assistir. Obrigada pela sugestão, até mais!

linezinha disse...

Dani adoro teu blog! e concordo com seu último comentário sobre a cena do leito de morte ficou estranho,mas será que o diretor quis mostrar a indiferença e frieza da personagem até na morte? Abraços

Daniele Moura disse...

Obrigada, Linezinha!
Taí uma coisa que eu não tinha pensado: de repente a frieza e dureza dela foi até à morte mesmo. O diretor pode ter feito esta escolha para mostrar que Ellen era indiferente até à propria morte. Gostei da visão!
Abraço!
Dani

Daniele Moura disse...

Rubi, eu fico muito lisongeada com este comtário seu. Seu blog é muito bem feito. Fico feliz em ler isso. O que eu acho legal aqui é realmente isso: a gente aprende com os trabalhos dos outros e se inspira, amplia o conhecimento. é maravilhoso.
Abraços
Dani