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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Quando mulher e artista inspiram juntas: Vivien Leigh

O título deste texto diz muita coisa. Meu pai sempre me ensinou a não mergulhar na vida dos meus ídolos, pois eu me decepcionaria. Este conselho foi me dado há algum tempo. Hoje eu posso dizer que não tenho mais ídolos, pois esta é uma palavra muito forte: idolatrar alguém não é saudável e nem correto, pois todos os seres humanos têm falhas, até os nossos artistas preferidos. A palavra ou fan também não faz mais parte do meu dia a dia, pois me lembra fanatismo ou fanático(a). É, meus amigos leitores, isto é, de fato, muito profundo. Houve um dia em que as atrizes, os astros em geral preservavam sua identidade e sua vida privada, pois a sociedade lhes cobrava muito e qualquer deslize não haveria mais filmes ou contratos em lugar nenhum. Hoje vivemos em um mundo onde pseudo-celebridades, como estrelas de reality shows, aspirantes a atrizes ou até as muito famosas, tudo isto em Hollywood, ganham muito mais milhões depois que têm suas vidas divulgadas de maneira incorreta. E muitas vezes, com uma equipe montada para isso. Tudo esquematizado para os papparazzi, tudo pelo escândalo. Me lembra até uma cena de A DOCE VIDA, de Fellini, quando a personagem de Anita Ekberg se distancia dos paparazzis, depois de ter se banhado na Fontana de Trevi. Em seguida, seu homem a encontra e a estapeia. Tudo fotografado por um grupo a 5 cm de distância do casal. Um escândalo, de certo.
Numa época muito distante da nossa, na Inglaterra, vivia uma atriz mundialmente conhecida por ter sido a protagonista de "...GONE WITH THE WIND", Scarlett. Até o ano de 1939 tudo corria como uma linda juventude para Vivien Leigh. Ela lutava para se divorciar de seu primeiro marido, Leigh Hollman, de quem seguiu com o sobrenome que a deixou conhecida, para se casar com o grande amor, aquele que não poderia e nem queria perder de vista: o ator Laurence Olivier. Os dois apaixonados se encontraram várias vezes enquanto ela filmava "...GONE WITH THE WIND" e ele estava a fazer "WUTHERING HEIGHTS". Pela segunda vez a palavra esquematizado entra aqui, mas desta vez para proteger a reputação de um casal que ainda não havia se separado de seus cônjuges. A MGM manteve os olhos em alerta em cima de Vivien, temendo que seu amado entrasse em sua casa alugada, onde ela tinha dois criados alemães, e por fim, arruinasse todo o plano da Southern Belle do romance de Margarett Mitchell. Um pouco mais tarde, ela conseguiu seu divórcio e Olivier, o da atriz Jill Esmond(que mesmo diante de tal situação manteve o carinho que sentia por Vivien) e assim os dois passaram finalmente a viver seu conto de fadas, agora aos olhos de todos. Conto de fadas que o casal deu vida nos palcos, montando Romeu e Julieta, de Shakespeare, primeiro em Nova York, depois passando por algumas outras cidades norte-americanas, como San Francisco. NY não aplaudiu a peça, que já tinha Jack Marivale no elenco, em pleno 1940. Jack se tornaria o companheiro de Vivien depois da separação de Olivier, em 1960, e lhe seria fiel até a morte da atriz, sete anos mais tarde. O casal Olivier, ainda vivendo à espera, juntou cada um seu dinheiro, de ambos os filmes que haviam feito para montar a peça, porém ela saiu logo de cartaz. Metade desacreditando em Larry, a outra em Leigh, e uma outra parte da mídia dizendo que estava tudo super produzido demais e não se via Shakespeare. Apesar de ter a editora deste blog só 28 anos, acho um pouco difícil que um casal de atores tão talentosos não tenham feito justamente o que eles faziam de melhor: representar uma peça clássica.
Estas eram as preocupações maiores de Vivien até o início dos anos 40: se manter junto de Larry, juntar o máximo de dinheiro que eles conseguissem para investir em peças na companhia Old Vic, onde trabalhavam, em Londres. E este dinheiro vinha do Cinema. Os Oliviers odiavam o Cinema. Como autênticos atores de palco, tinham amor ao Teatro e consideravam  o Cinema uma arte menor. O fato é que eles, sem que percebessem nem de longe, ajudaram a fazer a sua História. Nascida Vivian Mary Hartley, em 5 de novembro de 1913, em Darjeeling, India, Vivien sempre deu sinais de que queria atuar. Aos 3 anos, num festival de Teatro local, sua mãe, Gertrude, queria que a filha cantasse Little Bo Beep. Ela disse que recitaria. E o fez, para espanto de todos. Aos 7 anos, já na Inglaterra, Gertrude resolveu colocá-la num internato, o Roehamptom. Desta época se seguiram vários anos neste colégio até que dali a jovem Vivian finalmente reencontrasse os pais...Por pouco tempo. Logo eles a madariam para novos internatos, em vários países da Europa, a fim de que seus outros idiomas fossem devidamente treinados. Apesar de gostar das viagens, Vivian sentia absurdamente a presença dos pais, especialmente o carinho do pai e a vontade de voltar à Darjeeling. As requintadas festas no jardim foram ficando para trás. Seus pais viviam em constante lua de mel, esquiando aqui, jogando ali, navegando acolá. A educação refinada da menina parecia ter um preço muito mais alto. Apesar de viver solitária, sem a família, Vivien desenvolveu um caráter que fascinou todas as freiras de Roehamptom. Ela não se revoltava, não fazia mal-criações, nenhuma espécie de grosseria. Muito pelo contrário: conversava com as freiras, fez amizade com elas, e em dentro de pouco tempo era a criança mais popular do colégio. Lá, Vivian conheceu uma colega que não pensava exatamente como ela: Maureen O'Sullivan, que se rebelou, tentou ser enxergada de todas as formas possíveis quando se trata de uma criança. E quando não  fazia, vivia sozinha num canto qualquer, triste e desolada. As duas se tornaram amigas, mas Maurren não era um exemplo de educação, e sempre se esquivava dos modos ensinados pelas professoras.
A Desordem Bipolar começou a se manifestar na adolescência , em Roehamptom, mas foi durante os anos 40, quando já estava casada com Olivier, que os estados de humor da atriz passaram a oscilar  com frequência maior. Vivien se manteve a figura adorável do internato a encantar Olivier, fascinar os colegas com sua educação , carisma e boas maneiras. Fazia amigos e quando as crises de Bipolaridade colocava os relacionamentos em risco, ela pedia desculpas, segundo eles, das mais sinceras, pois sofria profundamente com tudo aquilo. Lhes mandava flores com um cartão carinhoso. Fazia de tudo para agradar, pois sabia que não era mais a mesma Vivien a quem Olivier conhecera e isso a abalava profundamente. Não queria perder a amizade das pessoas e nem o amor de Larry. Durante os anos que se passaram, sofreu tratamentos severos de eletrochoques, que a deixavam confusa e aérea por muito tempo, mas voltava ao teatro horas depois, e se apresentava, sem errar suas falas ou desenho cênico. Tarquin, o filho de Larry lembra de ter visto várias vezes a madrasta com queimaduras nas têmporas, mas os dois eram amigos , a ponto de o menino lhe contar tudo o que lhe acontecia, como um confidente. Vivien, em meio à tempestade, não perdera sua essência. O diretor Stanley Krammer, de THE SHIP OF FOOLS, recorda do quanto doloroso era dirigí-la, pois ver o sofrimento de Vivien lhe era perturbador. Ela  agora tremia da cabeça aos pés, os tratamentos não ajudaram e quando tinha que entrar na sua vez de filmar, tentava controlar a tremedeira ao máximo, pois seu profissionalismo, segundo o diretor, estava em primeiro lugar. Depois que a cena terminava, ela voltava para sua cadeira e começava a tremer de novo, enrolada numa coberta. Tudo isso acompanhou duas Tuberculoses: a segunda, fatal.
Não existe ser humano perfeito, lógico, mas é muito difícil termos um artista no qual possamos nos espelhar, quando este passou por problemas tão graves na vida pessoal. Vivien nos ensinou uma grande lição. Se você tem algum distúrbio e sabe disso, se algum dia atacou quem ama, então peça desculpas. Dar a cara a tapa, com a verdade, nunca foi ruim. Edifica e nos faz sentir melhor. Se tem amigos sinceros, busque no apoio deles a forma melhor de sair do pesadelo e buscar o auto-controle. Se você não tem distúrbio nenhum, mas já atacou alguém importante na sua vida de alguma forma, faça o mesmo: se desculpe. Frágil não é aquele que o faz. Reconhecimento de erros é coisa dos fortes. Os fracos se acovardam e olham a pessoa ferida despedaçada ao lado, sem mover um dedo, e isso Vivien nunca foi.
Na época do nascimento de Suzanne, quando estreou em sua primeira peça: "The Green Sash"
Por volta de 1940, no TWA

Retrato, início de carreira
Com Olivier: Romeo and Juliet: audaciosa produção de Shakespeare, em terras americanas.

Myra, em WATERLOO BRIDGE, mesmo ano.

11 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Maravilhoso, Dani. Texto sensível e esclarecedor, acompanhado de imagens de sonho.
Bravo.

O Falcão Maltês

Daniele Moura disse...

Obrigada, Antonio!
Você, sempre fiel por aqui!
Um abraço e ótima semana
Obs: Baixei "Em Roma , Na Primavera". Tão poéticos os trabalhos dela no cinema...

disse...

Que excelente texto sobre a vida e a carreira de Vivien, com belas imagens para completar. Também não acredito que o casal tenha feito uma má montagem de uma peça de Shakespeare. Talvez o público esperasse ver Scarlett no palco e se decepcionou.
Beijos!

Daniele Moura disse...

Foi exatamente o que aconteceu, Lê.
Você é ótima em advinhar!:-)
Obrigada!
Um abraço
Dani

Carla Marinho disse...

Dani, excelente post, minha querida.
Post indicado nos melhores da semana.

http://blogsdecinemaclassico.blogspot.com/2011/11/links-da-semana-de-7-1311.html

As Tertulías disse...

Que imagens maravilhosas voce escolheu--- sim, mais uma postagem da série "inesquecível" da Danielle!!!!!! Amei!!!

Daniele Moura disse...

Obrigada, pessoal!
Carla, valeu pela indicação!
Ricardo, seus elogios valem ouro, seu trabalho também é muito bom!
Um abraço
Dani

Jefferson Clayton Vendrame disse...

Ótimo Post. Leigh é Sempre Leigh. Adoro Ela em Uma Rua Chamada Pecado onde ela esta mais madura e centrada. Abração

Daniele Moura disse...

Jefferson,
Concordo. E em Lady Hamilton, me chamou a atenção a abertura, com a personagem já velha, contando sua história. Fascinante atuação.

Maxwell Soares disse...

Parabéns pelo texto. Realmente há muito fanatismo, sensacionalismo e exageros nos tipos criados pela indústria do cinema. Tento abstrair até onde posso. Admirar, sim. Amar, jamais. Um abraço...

Marlene M disse...

Muito bom texto com imagens lindas. Gostei muito, parabéns!