Até que ponto uma mãe amorosa chegaria para satisfazer as vontades de um filho? Esta é uma das questões levantadas em "Mildred Pierce"(1945), o filme que deu o Oscar de melhor atriz para Joan Crawford. O público, ao longo da história faz e refaz esta pergunta enquanto Mildred termina de realizar mais um capricho de sua filha Veda(Ann Blyth). Mas o filme aborda outros dois assuntos polêmicos para os anos 40: o divórcio de uma mulher de classe média e sua decisão de vencer sozinha, sem intervenção de nenhum homem(ou quase nenhum), quando decide se tornar uma empresária. A abertura com música de Max Steiner não poderia ser menos que misteriosa e bela: as ondas do mar batendo na areia, apagando crédito após crédito inicial.
A personagem título interpretada por Crawford sofre com um casamento onde não existe mais o amor. Seu marido Bert Pierce(Bruce Bennett) tem um caso com uma mulher conhecida da família. Ela decide, então, criar as duas filhas sozinha, mas tudo foi gerado por causa de Veda. Bert não aceita o fato de a filha mais velha ser tão mimada pela mãe e adverte a ela, mesmo que indiretamente, que Veda não vale todo o sacrifício. Para Mildred todas as pessoas que criticavam sua filha eram suas inimigas, e então era Bert.
A personagem Veda Pierce é o tipo de filha que as boas mães nunca deveriam ter. Seu caráter é vil, visando apenas subir degraus na sociedade, ter belos e caros vestidos, mesmo que para isto sua mãe tenha que dar o próprio sangue. Para ela, tudo o que Mildred fazia era em vão. Caprichosa e egoísta, nunca estava satisfeita com nada e não sabia dar valor aos vários bolos que a mãe fazia para comprar-lhe um vestido, pagar as lições de piano(que para Bert não valiam de nada, já que a garota jamais seria uma pianista, em sua opinião). O fato é que Bert não vedou os olhos em relação a ela, sabendo que as aulas de piano significavam para Veda mera coleção de um status maior como adolescente, já que os pobres não tinham dinheiro para isto ou aquilo. Para os necessitados, aulas de música não passavam de futilidades, já que não tinham como pagar pelo essencial, ou seja, comida na mesa e despesas essenciais.
O que mais impressiona neste filme é o amor incondicional que Mildred tem por Veda. Não se trata apenas de amor eterno maternal, o que seria comum, mas também um sentimento auto-destrutivo o qual ela não consegue controlar. Só quando recebe um tapa na cara da filha é que Mildred começa a enxergar quem ela é, de fato. Mesmo assim, sente saudades depois de tê-la colocado para fora de casa e acaba procurando por ela. Veda é encontrada num club barato escoltada por Wally Fay(Jack Carson), onde ela se apresenta cantando(e recebendo cantadas). E Mildred se humilha mais uma vez, indo até o camarim pedir para que ela volte. Pedido recusado friamente. Quando sua filha mais nova Kay(Jo Ann Marlowe) fica doente e morre, ela diz: "Espero que isso nunca aconteça a Veda". Declaração que chega a assustar. A cegueira da personagem é perigosa para ela mesma. Desde a separação de Bert, a vida de Mildred dá uma guinada quando ela resolve abrir um restaurante. Veda é totalmente contra a mãe trabalhar de garçonete, pois sente vergonha. Ela a hipnotiza de tal forma, que Mildred passa a fazer tudo a fim de ver a filha feliz. Então, quando o restaurante é inaugurado ela já está envolvida por Monte(Zachary Scott), o homem cuja vida está falida e que vende uma de suas casas para a construção do sonho de Veda...oops...do restaurante. Ilusão pura, já que a moça é insaciável se tornando inclusive golpista, ao tentar tirar dinheiro do ex-noivo com a história de uma falsa gravidez. Ela xinga, ameaça, humilha aquela mãe tão amorosa cuja preciosidade maior é profundo demais para um coração tão gélido entender: o mais puro sentimento do mundo. A divina graça de ser amada por um coração de mãe.
Foi Wally quem ajudou Mildred a procurar o terreno do restaurante e fechar negócio com Monte. Porém, Mildred não correspondia aos cortejos do rapaz e se decide por Monte, seduzida numa casa de praia, em frente a uma lareira. Coberta de beijos e palavras doces do homem, ela embarca naquilo que seria sua maior decepção, seu pior erro. Monte era explorador e passa a pedir-lhe dinheiro. Embora a paixão tenha sumido com tudo isso, Mildred tem uma outra carta na manga: se casar com Monte. Motivo principal é que ele tinha uma mansão que ela reforma. E advinhem só...Veda só voltaria para ela se morasse em uma casa luxuosa. E eis que a má filha à casa torna. A partir daí, acontecem coisas que só quem já viu este clássico pode saber. A mãe fracassa. Será? Não, mães cheias de amor nunca fracassam. A mais bela lição de "Mildred Pierce", depois de todo o sofrimento da personagem, pode-se ver ao final deste longa dirigido pelo maestral Michael Curtiz. Baseado na obra de James M. Cain e tendo como roteirista Ranald MacDougall, este é um exemplo de um filme completo, onde ótimas atuações, uma boa história e um ótimo diretor são o essencial. Para quê mais?
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| Mildred Pierce (Crawford) e sua endiabrada filha Veda (Ann Blyth) |




