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quinta-feira, 15 de março de 2012

Carrie(1952)

Um romance proibido. O cenário é a Chicago do século XIX. Ele é casado e gerencia o Fitzgerald's, um dos melhores restaurantes da cidade. Ela é uma jovem bela, chamada carrie, que sai de Columbia para Chicago, por força de seu pai. Apesar de ter ambições, sua situação não é nada boa, já que tem que trabalhar numa fábrica de sapatos a fim de pagar o aluguel da casa modesta a qual mora de favor. Na viagem de trem ela conhece Charles Drouet, um homem que não é rico, porém vive uma vida tranquila. Ele se apaixona. Ela, não. Demitida da fábrica após sofrer um acidente na máquina de costura, Carrie recorre ao amigo em sua loja. Este é o início de uma vida ignorada pela sociedade. Drouet não se casa com ela e a aflição da moça, rejeitada pelos vizinhos só aumenta sua repulsa por ele. Carrie conhece George Hurstwood um pouco antes disso, no Fitzgerald's. Conhecidos, o Sr. Drouet e George passam a ter reuniões informais em casa com Carrie, arrasada de vergonha. Eles tomam drinks, jogam cartas até que, num momento oportuno, o impossível acontece: George e Carrie se apaixonam, iniciando um tórrido romance.
Jennifer Jones faz uma Carrie poética e junto com suas personagens em "Madame Bovary"(1948) e "O Retrato de Jennie"(1948), entra a década de 50 como uma das heroínas românticas mais mágicas da História do Cinema. Saída de livros de estórias, sempre tensa, sonhadora e misteriosa. A vítima das paixões. Aquelas arrebatadoras, que levam à degradação humana, à destruição. Porém, a aura "além Terra" de Jennifer continua ali e apesar dos personagens serem escandalosos, errantes ou nebulosos, ela permanece o filme inteiro como se fosse um ser intocável, a dama fora da nossa realidade, que nos faz viajar em mundos e lugares distantes...tão distantes quanto ela mesma. Àquela época de sentimentos profundos, onde o amor livre e fervoroso não era aprovado e as mulheres sofriam em casamentos arrranjados, propensas à infelicidade. A impossibilidade de segurar sua radiante beleza diante de cavalheiros apaixonados faz com que Jennifer Jones se torne ainda mais interessante. No início, ela resiste, se esquivando, recusando convites, mas aos poucos vai cedendo à paixão e de repente o rio calmo e transparente se transforma num vendaval de emoções, como uma corredeira forte e violenta ou a cachoeira e suas águas sedentas de pedra. Jones é sempre um show à parte e neste filme, ela nos oferece uma de suas melhores performances.
Laurence Olivier é George Hurstwood, o homem enlouquecidamente apaixonado, que não teme driblar os desconhecidos, os conhecidos e sua própria mulher, Julie Hurstwood(Miriam Hopkins). Ele é mal-amado, incompreendido e humilhado por Julie e apesar de ter dois filhos adolescentes, isso não basta. George é a própria figura do homem infeliz e amargurado. Olivier já havia interpretado até então, uma gama de personagens, cada um com uma cor diferente. O mais respeitado do teatro Inglês, o ídolo de dez entre dez atores amantes dos palcos. O impecável George de Olivier se cruza com a também atormentada Blanche de sua então esposa Vivien Leigh, que naquele ano havia conquistado seu 2º Oscar de Melhor Atriz, por "Um Bonde Chamado Desejo"(1951). Perdido de amores por Carrie, George se vê em amargura e desespero, já que não pode nem conceber a idéia de viver longe dela. Uma história onde ambos são acertados e dilacerados. O amor de carrie por George faz com que ela não se importe em viver na pobreza, porém as mentiras dele afastam a moça pouco a pouco. Olivier se entrega totalmente neste que é um de seus momentos mais sensíveis no Cinema. Seu personagem é inseguro a ponto de esconder a realidade da amada, com medo de perdê-la para sempre. Quanta dor ele sente, ao descobrir que, às vésperas de terminar sua vida ao lado de uma mulher que o ama de verdade, começa a sofrer as consequências de uma ação que o levaria à ruína. Impossível não sentir compaixão pelo personagem, que acaba sendo o mais prejudicado no final. Este é o Olivier magistral que o público passou a admirar lá atrás, no início dos anos 30, período em que iniciou longa carreira teatral, foi recusado por Garbo para viver seu par em "Rainha Christina"(1933), pois a atriz queria dar uma oportunidade a John Gilbert, que estava com os dias contados na Metro. Olivier não esmureceu, pois amava o que fazia. Passou a respeitar o cinema anos mais tarde, porém sua primeira paixão era o palco.
A excelente Miriam Hopkins é a esposa cruel, fria, incansável quando o assunto era humilhar o pobre George. Mesmo não sentindo amor , ela faz questão de acabar com o marido, negando em conceder o divórcio e arruinando sua vida financeira. George não tem saída. Não pode ser feliz. Julie, em seu egoísmo supremo, jamais aceitaria isto. Não existiu megera melhor do que as que Hopkins interpretava. Todas estas mulheres más eram na verdade, também extremamente inseguras. Para se garantir, usava da maldade como poder e se perdia na própria loucura, como em "Old Acquaitance"(1942), em que interpreta a amiga invejosa de Bette Davis. Também, neste filme ela é a esposa que age de maneira vil e inaceitável. Beirando à loucura, suas megeras tinham carga dramática parecida com uma dinamite, prestes a explodir a qualquer momento. Infelizmente, Miriam Hopkins é pouco lembrada hoje. A pior rasteira que um ator pode sofrer é o esquecimento. Charles Drouet é vivido por Eddie Albert, que mergulha no homem que ri o tempo todo para esconder sua dor. Apesar de todos os esforços em manter Carrie perto dele, acolhendo-a e tirando-a do destino cruel do trabalho escravo da mulher no século XIX, não é o bastante para impedir que ela caia de amor por George e fuja com ele. Um ótimo ator, que preenche então, a galeria de seres humanos tão diferentes entre si, com interesses difiretes e sentimentos idem. Ótimo trabalho de William Wyler como diretor, o filme foi traduzido no Brasil como "Perdição de Amor" e tem trilha sonora assinada pelo gênio David Raksin, além de figurinos criados pela lendária Edith Head. Adaptado da novela de Theodore Dreiser, "Sister Carrie", foi produzido pelo próprio William Wyler em associação com Lester Koenig. Apesar de ter sido lançado em preto e branco, "Carrie" parece uma pintura de Van Gogh: cheia de cores e sentimentos que parecem se mover das telas, com personagens  vivos e história arrebatadora.
Pôster do filme
Jennifer Jones como Carrie
Olivier como George Hurstwood
Miriam Hopkins

6 comentários:

disse...

Dani, por um momento eu pensei que você ia falar sobre "Carrie, a estranha", aí vi a data e percebi que não podia ser... :)
Ainda não conhecia este filme. Assisti a alguns filmes com Olivier e com Mirian Hopkins e gostei do que vi. Sua sugestão está anotada em minha lista.
Beijos!

Jefferson Clayton Vendrame disse...

Daniela, Parabéns por esse post completamente inédito para mim. Nunca tinha ouvido falar desse filme, e olha que eu procuro o máximo que posso conhecer os grandes filmes do cinema antigo.... Já esta anotado tbm, assim como a Lê foi para mim uma ótima sugestão...

Abração e apareça em meu blog, vc anda muito sumida....

Daniele Moura disse...

Olá, queridos Lê e Jefferson

Este filme é facilmente encontrado nas melhores livrarias e até nas Americanas. Faz parte da série Clássicos Paramount e além de vir envolto a uma luva de papelão, tem uma linda foto do filme. Assistam!!

Jefferson, eu estava sumida mesmo. Não escrevia desde o Carnaval. É uma questão minha mesmo: às vezes eu preciso sumir um pouco. Fico feliz com a solicitação!
Um abraço
Dani
Obs: Adoro "Carrie, A Estranha" e um dia vou escrever sobre ele também!!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Um drama maravilhoso, com ótimas atuações de todo o elenco. A Jennifer é a minha musa. Sou fiel. Mas admiro também a Miriam, uma atriz maravilhosa e pouco lembrada. Parabéns pelo post, Dani.

O Falcão Maltês

As Tertulías disse...

Nossa.... demais a idéia de pegar "Carrie" para uma postagem. Filme esquecido, desprezado, menosprezado... e um filme que AMO!!!!!! (Amo Jones, by the way!). Obrigado, minha flor de amiga!!!!!!! Voce É SENSACIONAL!!!! O que toca vira ouro...

Daniele Moura disse...

Olá!
É, Antônio, o filme é belo mesmo, muito profundo, do jeito que eu gosto! A Hopkins era tão boa, que chegou a roubar a cena da Bette nos 2 filmes que fizeram juntas: The Old Maid e Uma Velha Amizade. E Olha que Bette era sensacional, hein!
Ricardo, que gracinha essa mensagem! É tão bom ler essas coisas! E assim como você e o Antonio, eu também amo a Jones. Ela era fantástica atriz!
Um abraço!