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domingo, 18 de março de 2012

Mildred Pierce(1945)

Até que ponto uma mãe amorosa chegaria para satisfazer as vontades de um filho? Esta é uma das questões levantadas em "Mildred Pierce"(1945), o filme que deu o Oscar de melhor atriz para Joan Crawford. O público, ao longo da história faz e refaz esta pergunta enquanto Mildred termina de realizar mais um capricho de sua filha Veda(Ann Blyth). Mas o filme aborda outros dois assuntos polêmicos para os anos 40: o divórcio de uma mulher de classe média e sua decisão de vencer sozinha, sem intervenção de nenhum homem(ou quase nenhum), quando decide se tornar uma empresária. A abertura com música de Max Steiner não poderia ser menos que misteriosa e bela: as ondas do mar batendo na areia, apagando crédito após crédito inicial.
A personagem título interpretada por Crawford sofre com um casamento onde não existe mais o amor. Seu marido Bert Pierce(Bruce Bennett) tem um caso com uma mulher conhecida da família.  Ela decide, então, criar as duas filhas sozinha, mas tudo foi gerado por causa de Veda. Bert não aceita o fato de a filha mais velha ser tão mimada pela mãe e adverte a ela, mesmo que indiretamente, que Veda não vale todo o sacrifício. Para Mildred todas as pessoas que criticavam sua filha eram suas inimigas, e então era Bert.
A personagem Veda Pierce é o tipo de filha que as boas mães nunca deveriam ter. Seu caráter é vil, visando apenas subir degraus na sociedade, ter belos e caros vestidos, mesmo que para isto sua mãe tenha que dar o próprio sangue. Para ela, tudo o que Mildred fazia era em vão. Caprichosa e egoísta, nunca estava satisfeita com nada e não sabia dar valor aos vários bolos que a mãe fazia para comprar-lhe um vestido, pagar as lições de piano(que para Bert não valiam de nada, já que a garota jamais seria uma pianista, em sua opinião). O fato é que Bert não vedou os olhos em relação a ela, sabendo que as aulas de piano significavam para Veda mera coleção de um status maior como adolescente, já que os pobres não tinham dinheiro para isto ou aquilo. Para os necessitados, aulas de música não passavam de futilidades, já que não tinham como pagar pelo essencial, ou seja, comida na mesa e despesas essenciais.

O que mais impressiona neste filme é o amor incondicional que Mildred tem por Veda. Não se trata apenas de amor eterno maternal, o que seria comum, mas também um sentimento auto-destrutivo o qual ela não consegue controlar. Só quando recebe um tapa na cara da filha é que Mildred começa a enxergar quem ela é, de fato. Mesmo assim, sente saudades depois de tê-la colocado para fora de casa e acaba procurando por ela. Veda é encontrada num club barato escoltada por Wally Fay(Jack Carson), onde ela se apresenta cantando(e recebendo cantadas). E Mildred se humilha mais uma vez, indo até o camarim pedir para que ela volte. Pedido recusado friamente. Quando sua filha mais nova Kay(Jo Ann Marlowe) fica doente e morre, ela diz: "Espero que isso nunca aconteça a Veda". Declaração que chega a assustar. A cegueira da personagem é perigosa para ela mesma.  Desde a separação de Bert, a vida de Mildred dá uma guinada quando ela resolve abrir um restaurante. Veda é totalmente contra a mãe trabalhar de garçonete, pois sente vergonha. Ela a hipnotiza de tal forma, que Mildred passa a fazer tudo a fim de ver a filha feliz. Então, quando o restaurante é inaugurado ela já está envolvida por Monte(Zachary Scott), o homem cuja vida está falida e que vende uma de suas casas para a construção do sonho de Veda...oops...do restaurante. Ilusão pura, já que a moça é insaciável se tornando inclusive golpista, ao tentar tirar dinheiro do ex-noivo com a história de uma falsa gravidez. Ela xinga, ameaça, humilha aquela mãe tão amorosa cuja preciosidade maior é profundo demais para um coração tão gélido entender: o mais puro sentimento do mundo. A divina graça de ser amada por um coração de mãe.
Foi Wally quem ajudou Mildred a procurar o terreno do restaurante e fechar negócio com Monte. Porém, Mildred não correspondia aos cortejos do rapaz e se decide por Monte, seduzida numa casa de praia, em frente a uma lareira. Coberta de beijos e palavras doces do homem, ela embarca naquilo que seria sua maior decepção, seu pior erro. Monte era explorador e passa a pedir-lhe dinheiro. Embora a paixão tenha sumido com tudo isso, Mildred tem uma outra carta na manga: se casar com Monte. Motivo principal é que ele tinha uma mansão que ela reforma. E advinhem só...Veda só voltaria para ela se morasse em uma casa luxuosa. E eis que a má filha à casa torna. A partir daí, acontecem coisas que só quem já viu este clássico pode saber. A mãe fracassa. Será? Não, mães cheias de amor nunca fracassam. A mais bela lição de "Mildred Pierce", depois de todo o sofrimento da personagem, pode-se ver ao final deste longa dirigido pelo maestral Michael Curtiz. Baseado na obra de James M. Cain e tendo como roteirista Ranald MacDougall, este é um exemplo de um filme completo, onde ótimas atuações, uma boa história e um ótimo diretor são o essencial. Para quê mais?

Mildred Pierce (Crawford) e sua endiabrada filha Veda (Ann Blyth)

22 comentários:

Danian Dare disse...

Joan Crawford viveu um pouco essa história com a sua filha adotiva Christina. O autor de novelas Gilberto Braga se inspirou nesse filme para criar a sua novela VALE TUDO. Com esse filme Crawford retoma com força a sua carreira depois de sair da Metro.

Adecio Moreira Jr. disse...

Fiquei curioso com a obra desde que eu assisti a minissérie da HBO com a Kate Winslet no papel de Mildred.

Parabéns pela iniciativa, pelo texto e pelo blog!

disse...

Um dos melhores trabalhos de Joan Crawford e, é claro, de Ann Blyth como a venenosa Veda. Amanhã também publicarei umas palavrinhas sobre este filme.
Beijos!

Daniele Moura disse...

Olá, pessoal!
Tenho muita vontade de ver como foi a série da HBO. Em se tratando de Kate Winslet, tenho certeza que ela deve ter feito uma ótima Mildred Pierce.
Obrigada e um abraço
Dani

Jefferson Clayton Vendrame disse...

Dani Parabéns pelo ótimo trabalho. Esse Post esta incrível. Eu somente aumentei meu desejo em assistir esse filme tão aclamado e tão difícil de ser encontrado.
Ótimo Texto, ótimas fotos.

Abração

Rubi disse...

Mas que excelente post sobre Joan Crawford. Ela é uma das minhas atrizes preferidas. Apesar de ter assistido ótimos filmes com ela, O Que terá acontecido a Baby Jane foi o que mais me marcou.

*Espero que esteja gostando dessa sequência de filmes da Marilyn Monroe!

Daniele Moura disse...

Olá, Rubi!
Claro que sim!! Linda homenagem a sua. Parabéns! Eu comentei sobre dois posts de filmes dela. Dê uma olhadinha!
Um abraço
Dani

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Grande melodrama. A Joan se supera. Inclusive prefiro-a nessa fase beirando os 40.

O Falcão Maltês

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Dani, consulte esses sites:

www.virginiarappe.com

e

http://www.findadeath.com/Deceased/r/virginiarappe/rappe.htm

Daniele Moura disse...

Obrigada, amigo Antonio, sobre os sites da Virginia!
Um abraço
Dani

As Tertulías disse...

Fazia tempo que nao uvia uma mencaoo sobre "Mildred" e juro que fiquei até com vontade de reve-lo (Nao estou certo se o tenho, porém... vou olhar!). Ann Blyth rouba muito o filme... Uma pergunta: a Carla nao ia fazer também uma postagem sobre Joan???? ("Mommydearest, Joan"). Adoro os dramalhoes da Warner dos anos 40... Parabéns por mais uma postagem perfeita... Densa, nos deixa curiosos e pedindo por mais... Amei! Ricardo

Fanzine Episódio Cultural disse...

EM SEU OLHAR
Em seu olhar me vejo num universo de paixão
Onde as estrelas brilham intensamente
Quando seus lábios tocam os meus.
Meu coração (outrora) tão frio e carente,
Bate cada vez mais ao sentir seu calor.
Quero me enlouquecer com seu carinho,
Ir de encontro ao clímax,
Perdendo-me em suas curvas,
Levado aos seus gemidos...

*Agamenon Troyan é poeta e editor.

Daniele Moura disse...

Olá, Ricardo!
A Carla fez: é o Dia D Joan Crawford. Visite o Grupo de blogs , que está lá! Concordo em relaçao à Ann Blyth. Ela está uma megera no filme, ótima!
Carlos, linkei o seu blog ao meu. Mais um poeta aqui no blog. Maravilha!!
Abçs,
Dani

Por que você faz poema? disse...

Uma mulher divorciada e com duas crianças para criar era um tema bastante ousado para o período, bem como o caso amoroso sugerido entre Mildred e o advogado Wally Fay e a homossexualidade da gerente do restaurante, Ida Corwin, interpretada por Eve Arden (ponto negativo entre os coadjuvantes somente a empregada negra, vista de maneira caricata). Por se manter atual, “Almas em Suplício” tem, ao longo dos anos, frequentado algumas listas de melhores, eventualmente divulgada por publicações especializadas, e sido alvo de um culto crescente. Por aqui, inspirou Gilberto Braga a escrever as personagens Raquel Accioli (Regina Duarte) e Maria de Fátima (Glória Pires) para a telenovela “Vale Tudo”, produzida pela Rede Globo em 1988 e recentemente reexibida pelo canal VIVA, onde alcançou bons índices de audiência e repercussão. A relação conflituosa entre mãe e filha gerou um marco da teledramaturgia brasileira e não são poucos os pontos em comum com o filme de 1945: o momento em que Veda Pierce confessa que não suporta viver ao lado de uma vendedora de tortas cheirando a gordura, remete à uma cena clássica do folhetim. Raquel, por sinal, se torna uma bem sucedida dona de restaurantes, depois de ter comercializado sanduíches nas praias do Rio de Janeiro. E se Maria de Fátima vendeu a casa da mãe antes de fugir e chegou a negociar o próprio filho, a busca por ascensão social e dinheiro não deixam as artimanhas de Veda para traz. Mildred Pierce e televisão tiveram um novo encontro com a minissérie de mesmo nome produzida pela HBO. Prometendo ser mais fiel ao livro de James M. Cain, principalmente por retirar a trama do assassinato (criada para empregar a estrutura noir, que era um modismo, mas que não deixou de ser uma solução interessante), o cerne ainda é a relação mãe e filha, muito mais densa e dolorida do que em suas encarnações anteriores, e mais cheia de possibilidades, de indefinições. A Mildred de Kate Winslet alterna momentos de força e fraqueza diante da filha (embora não seja difícil imaginar quem sairá vencedor entre a manipulação e a subserviência) em embates carregados de melodrama, um gênero pesado, desconfortável até. Enquanto no filme original tudo acontecia rapidamente, aqui o ritmo é outro, é lento, melancólico, introspectivo. Todd Haynes não ameniza também nas cenas de sexo, que surgem muito mais como moeda de troca do que desejo. Ainda que suas conclusões sejam mais convencionais do que as da versão anterior.

Dilberto L. Rosa disse...

Taí um grande filme que nunca me chegou às mãos: suas ótimas observações só me aguçaram o desejo de vê-lo! Joan era mesmo grande: transitou entre os 'blockbusters' vazios iniciais devido à beleza e depois, quando esta se foi, investiu numa sólida carreira de atriz versátil e inteligente. Parabéns a ela e a você, com esta tela sempre prateadamente boa! Só lamento suas longas ausências dos Morcegos (pelo menos ele está lincadinho ali na sua coluna lateral, ré, ré)! Abração!

Daniele Moura disse...

Porque Você Faz Poema, belíssimo texto!
Dilberto, assim que tiver tempo vou visitar. Estou ensaiando uma peça e não tenho tido tempo nem pra entrar aqui.
Um abraço
E Boa Páscoa a todos,
Dani

Daniele Moura disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Suzane Weck disse...

Ola Daniele,foi uma ótima escolha tua lembrar este filme e esta brilhante atriz.O texto esta excelente,aliás como todo teu trabalho no blog.Grande abraço.

Maxwell Soares disse...

Um excelente filme. Não conhecia. Tudo que ocorreu de mudança nos anos 40, realmente, foram de uma grande relevância. No entanto, o contexto deste filme parece-me muito atual. A mãe que mima, a frieza no casamento, o divórcio e toda essa dor gerada é muito real. Tomarei nota. Terei que vê-lo.

Daniele Moura disse...

Obrigada, Suzane e Maxwell!
O assunto é bem atual mesmo, principalmente no quesito violência: o que tem de filha batendo em mãe, pai, avó não está no mapa.
Um abraço
Dani

Faroeste disse...

Assisti a Alma em Suplicio na TV, no Canal Cult da SKY.

E foi uma grata surpresa, apesar de ter ido ver a fita mais pelo nome do Michael Curtiz, o diretor.

O que se pode dizer do filme que já não foi descrito nesta linda materia?

Tudo aquilo ali é apenas para se ter consciencia do que uma MAE é capaz de fazer por um filho.

Um filme acima da média e com uma atuação da Fontaine de invejar.
Entretanto, não se deve esquecer a interpretação formidável de sua filha, a Ann Blyth.
jurandir_lima@bol.com.br

Daniele Rodrigues de Moura disse...

Olá, Jurandir!
Que bom que assistiu o filme!
É, a história é forte e as atuações também. Ann Blyth arrebentou!
Um abraço
Dani