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quinta-feira, 24 de abril de 2014

"Charlotte e Seu Bife", 1960



As coisas mais simples da vida pulam aos nossos olhos em cenas de cinema. A tela grande é a melhor forma de apresentar ao público uma nova forma de ver o mundo e as pessoas. Saber tirar proveito de um momento tão singelo quanto uma conversa enquanto come um bife, por exemplo. As lentes experimentais do cineasta Éric Rohmer captaram isso: enquanto prepara seu bife na cozinha de casa, Charlotte(Anne Couderet) conversa com seu namorado Walter(Jean-Luc Godard) sobre uma garota que ele conhecia, Clara(Andrée Bertrand). Ela começa a se comparar à outra moça, com ciúmes. Esse sentimento foi despertado propositalmente por Walter quando apresentou Clara à Charlotte. Um pouco antes, andando na neve, os três tentam uma conversa fluida, sem sucesso. Estão sem graça e sem assunto. Um ínfimo som e uma delas diz "o quê? Desculpe, pensei que tivesse falado comigo".
Quase todos os casais de namorados já passaram por isso. O ciúme normalmente gera insegurança. Imediatamente a garota passa a duvidar de seu parceiro, em busca da resposta para a tão conhecida questão: "O que ela tem que eu não tenho?". Embora não seja empolgante, o curta, que foi um dos primeiros trabalhos de Rohmer, cativa por que faz com que as pessoas se identifiquem com a história. Muitos consideram o filme chato ou lento demais. Filmado em 1951 com Anne Couderet e Andrée Bertrand, CHARLOTTE ET SON STEAK foi lançado somente em 1960. As vozes das atrizes foram dubladas por Anna Karina(como Clara) e Stéphane Audran(como Charlotte). Outra curiosidade é ver Jean-Luc Godard atuando. O trabalho dele é bem feito, como o jovem namorado frágil, mas ao mesmo tempo estrategista e instigador. Ao longo de sua carreira como diretor, Godard seguiu atuando, mesmo que por várias vezes muito sutilmente, sem aparecer nos créditos(especialmente nos anos 60).

A personagem Charlotte está com viagem marcada de trem e tem pressa. Mesmo assim dá um pulinho com Walter até sua casa. Ela está com fome, mas não o convida para entrar. Os maus tratos não o intimidam, já que a irritação era exatamente o que ele queria da garota. Na porta da cozinha, ele a observa cozinhar. Abre a porta da pequena geladeira e pega carne e manteiga. Prepara tudo e senta à mesa para degustar a comida. O interessante deste curta é observar que, muitas vezes na vida, uma simples refeição pode mudar os acontecimentos. Através do diálogo, aprendemos a tomar decisões, como o fim de um namoro ou a sua continuação. O desentendimento ou uma reconciliação. Ela pensa em que resposta dar, enquanto mastiga. E mais um pouco de reflexão ao colocar outro pedaço de carne na boca. Escolhas podem ser feitas com apenas 10 minutos, entre uma caminhada e um momento na cozinha de casa. Durante a breve refeição, entre cortes de um pequeno bife e garfadas, se desenrola uma discussão elegante, com palavras bem escolhidas e contidas, o que se tornaria mais tarde uma das características de estilo de Rohmer. Com formação católica, trouxe para seus longas e curtas um fundo com a moral e os bons costumes pregados pela sociedade ocidental. Nascido em Tulle, na França, em 20 de março de 1920, foi também professor e escritor, além de ter tido participação fundamental na respeitada publicação francesa sobre cinema, "Cahiers Du Cinéma". Cada um pode desenvolver sobre o quê entendeu no final do curta, através da sensibilidade dos atores. Abraços de insegurança, beijos de preocupação. Uma mistura de sentimentos dos dois jovens, que não leva a ler neles uma verdadeira paixão mas sim um "cuidar" com o outro, sem pena e talvez, com um pouco de amizade.

5 comentários:

Anônimo disse...

Ah Dani, esse não vi ainda. Vou procurar. Interessante ver o Goddard na frente das câmeras. Bj. Carla Marinho

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Oi, Dani!

Como a Carla, esse também eu não conheço. Mas parece bem inserto na Nouvelle Vague - os diálogos (aparentemente) ao léu, a coloquialidade, a temática doméstica: uma simplicidade toda que procurava separar essa nova produção da hollywoodiana, feita de estrelas e de situações estereotipadas. A Nouvelle Vague acabou, no final das contas, criando também situações estereotipadas, embora na contracorrente de Hollywood...
Talvez você gostasse de "Cinefilia", um livro bem recente que estuda esses homens (delicioso de ler, mas que a correria do dia-a-dia me impede sempre de concluir).

Bjinhos. Cuide-se!
Dani

TELA PRATEADA disse...

Oi, Gente!!
Assistam! Ele é bem "dia a dia", bem gente como a gente! Pra mim tem sido difícil embarcar nesse mundo do cinema europeu, especialmente a nouvelle vague. Sempre amei Hollywood e aquele mundo de sonhos, tão diferente do mundo real...rsrsrs!
Mas estou gostando de variar!
Tem no youtube este filme! Acho que vale a pena ver. Vou colocar o link no post.
Beijo,
Dani.

disse...

Assim como as outras meninas, eu ainda não conhecia este filme. Mas fui vê-lo antes de ler seu post. De fato, é bem simples, mas um retrato do cotidiano, afinal, as conversas que todos nós temos nem sempre são dignas de filme. Também fiquei com a impressão de que o casal não é realmente apaixonado, mas eles cuidam um do outro.
Por que Rohmer decidiu redublar o filme?
Beijos!

TELA PRATEADA disse...

olá, pessoal!
Obrigada pelos comentários aqui, carinhosos!
Lê, eu vou ficar te devendo essa, viu? Não encontrei a resposta pra essa pergunta. E acho muito estranho que o diretor tenha feito isso.

Um abraço
Dani