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sexta-feira, 2 de maio de 2014

THE POSTMAN ALWAYS RINGS TWICE, 1946.




É noir...é em preto e branco...perverso...e de excelente qualidade.
O irresistível jogo de sedução envolvendo Lana Turner e John Garfield em O DESTINO BATE À PORTA consolidou os dois atores como astros irrefutáveis das telas. O resultado não poderia ter sido diferente: a produção de 1946 tem direção impecável de Tay Garnett, baseada na obra de James M. Cain(o mesmo autor de Pacto de Sangue e Mildred Pierce), traz a sensualidade de Lana Turner(Cora Smith) aliada à pura vilania, além da atuação extraordinária de John Garfield como o louco de amor Frank Chambers. Em adicional, o brilhantismo de Cecil Kellaway como Nick Smith, o marido traído; a vítima prestes a ser abatido como um cordeiro. Tudo em nome da ganância e busca pelo poder.

O casal de amantes arquiteta um plano, que embora fosse para eles infalível, se desgraça quando a paixão entra no lugar da razão. A mente fria e calculista de Frank entra em colisão com o sentimento de desejo por Cora. Depois do grande erro da primeira tentativa, entra em cena o plano B: matar o bom velhinho dentro do carro e empurrá-lo penhasco abaixo. A esta altura, os apaixonados não raciocinam mais, tamanha a cegueira pelo dinheiro e o desespero em ver o homem( a pedra no sapato) morto. Lana Turner representa fielmente o papel da femme fatale que não se redime. Cruel até o fim, seduz o personagem de Garfield até deixá-lo a ponto de cometer um crime. Entra nesse momento o típico "você faria qualquer coisa por mim? Qualquer coisa mesmo?" e ele cede. À princípio, ele não queria matar, porém se não o fizer jamais terá a mulher que deseja em seus braços novamente. E Cora, que não era nada na vida, agora é ávida pela consumação do assassinato do homem que lhe deu tudo. Casada por conveniência, ela quer o restaurante de Nick para si.

A sexualidade entre os dois amantes é tão latente neste filme, que chega a ser ridícula a presença de tantas cenas de sexo na segunda versão dos anos 80, com Jessica Lange e Jack Nicholson. Na produção de 1946 o público embarca na aventura ardente sem precisar ver o ato, pois sentem e percebem tudo o que acontece entre os dois. O ódio inicial, os olhares desejosos, o batom que rola no chão. O cigarro aceso, a câmera que filma Lana de baixo à cima, com seu conjuntinho branco composto de short e blusa, na cena mais antológica do longa. Um acusa o outro quando encurralados na prisão. Cora o destrói mas também é destruída. Nunca mais viveria em paz e apesar de solto, o casal é chantageado e coagido, o que culmina em uma grande tragédia. Reféns da vingança. Vítimas de suas próprias armadilhas. Os ardilosos agora são fracos. O covarde sempre sucumbe quando cessam suas armas. Fugindo de todas as evidências, eles tentam correr de tudo o que criaram, vivendo um verdadeiro inferno de criminosos.

Todas as roupas que Lana Turner usa no filme são brancas. Exceto o vestido preto que ela usa para ir ao velório da mãe(o mesmo modelo branco do início da história). Criadas pela lendária Irene, o branco do vestuário contrasta com o caráter nada pacífico de Cora, assim como o loiro platinado de seus cabelos. A atriz não aprovou John Garfield como seu parceiro em THE POSTMAN... Em sua autobiografia, ela disse: "Meu Deus, não poderiam ao menos ter arranjado alguém bonito"? Naquela época, John já havia colhido os frutos de sua bem-sucedida parceria com Bette Davis: a fundação do Hollywood Canteen, durante a 2ª Guerra Mundial. A cantina era o principal elo entre os combatentes e seus queridos ídolos da tela prateada. Neste mesmo ano, filmou com Joan Crawford o belo HUMORESQUE, no papel do raivoso violinista que se envolve com uma mulher mais velha. Um ano depois viria o sucesso GENTLEMAN'S AGREEMENT(A LUZ É PARA TODOS), porém sua vida foi encurtada por um sério problema cardíaco, falecendo aos 39 anos de idade.


2 comentários:

Danian Dare disse...

Interessante notar que de mocinha bonita da MGM, Lana chegou ao seu ápice artístico nessa obra prima cinematográfica.Uma Lana dramática, além de glamourosa. E Lana, sem querer certamente, alimentou esse lado "noir" na sua imagem se envolvendo com amantes ligados à gangsters, culminando com o assassinato de seu amante pela própria filha. Sugiro a você, Daniella o uso de vídeos para reforçar a imagem dos filmes que comenta, envolvendo melhor o leitor. Esse seria um vídeo interessante para entender mais o ambiente desse filme: https://www.youtube.com/watch?v=Mi4UaQWN_H8.
Afinal estamos na Tela Prateado.

TELA PRATEADA disse...

Obrigada pela sugestão, Danian!
"Johnny Eager" já traz essa Lana dramática e noir! Amo aquele filme tb!