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sábado, 17 de setembro de 2011

Greta Garbo: os vários gestos e faces de uma atriz mágica.

A cabeça jogada para trás numa cena de amor. Os lábios entre-abertos. As mãos confusas e inquietas, como seus personagens, seguida da expressão de pavor quando o perigo se aproximava. Sua imagem é tão atemporal, que para lembrar destes detalhes basta fechar os olhos e imaginá-la. Tente se recordar dos vários papéis em que Garbo fazia os homens sofrerem e acabava infeliz, com seu rosto cheio de emoção. A voz embargada, carregada de drama junto de um sotaque sueco que a deixava ainda mais interessante. Com sua Camille ou Marguerite, ela morria de Tuberculose, ao lado de Armand(Robert Taylor) e proporcionou ao cinema uma das cenas de leito de morte mais bem construídas da História de Hollywood.
O amor recusado pelo destino ou por alguém que a considerava "imprópria". Somem isto aos amantes de quando era casada e infeliz com algum senhor rico e enfadado. Como o personagem de Lewis Stone em WILD ORCHIDS(1928). A personagem de Garbo, então, se entrega  a uma paixão sem freios. Ela foi várias e as várias não pensavam quando apaixonadas. Era o tempo de se viver uma felicidade que nunca havia experimentado. Com seus amores, Diana Merrick, Lillie, Felicitas, Camille, Anna Karenina iam até o fundo com todo o sentimento, se rebaixavam em humilhação e por fim, sucumbiam a um destino trágico levadas pela insegurança.
Garbo soube expressar como ninguém estes sentimentos, e em vários outros papéis, desde sua estreia norte-americana em 1926 até 1941, quando fez seu último filme e se aposentou, muito cedo, aos 36 anos. Seja se entregando nos braços de seu amado Leo(John Gilbert) num divã, deixando-se ser pega pelo marido em FLESH AND THE DEVIL(1927) ou provocando os homens latinos em uma mesa de jantar, somente com um levantar de axilas em THE TEMPTRESS(1926), nos anos 20, Garbo era erotizada pela Metro. Na década seguinte, quando viveu seu auge, após ter passado pelo teste do som com ANNA CHRISTIE(1930), seus papéis passaram de vamp auto-destrutiva à heroínas românticas, como QUEEN CHRISTINA(1933), CAMILLE(1936), ANNA KARENINA(1935). Ela continuava sofrendo, mas sua persona em cena estava então mais sofisticada e clássica.
Porém esta trajetória se desenvolveu, infelizmente, com momentos desagradáveis para a atriz.

A vamp erotizada dos anos 20 foi descoberta pelo diretor Mauritz Stiller...

...mas sua trajetória foi escrita com desagravos, onde a humilhação foi o que mais marcou.
Antes de chegar em Hollywood, Greta já era uma estrela na Suécia. Seu nome e imagem chegaram ao conhecimento de L.B. Mayer, que inicialmente não se interesssou por ela e sim por seu mentor: Mauritz Stiller. No entanto, sob insistência de Victor Sjöström, Mayer assistiu ao filme dirigido por Mauritz Stiller, GÖSTA BERLINGS SAGA(1924) e adorou, mudando o pensamento sobre a sueca, por ele então desconhecida. A pedido de Stiller, Garbo foi levada à América e contratada, mesmo com um Mayer não muito satisfeito com o que tinha acabado de fazer. Quando eles chegaram, o inferno começou: só um fotógrafo apareceu para recebê-los e não dezenas, como eles haviam sonhado e imaginado que seria. Nenhum repórter, dezenas de assistentes ou gente do Departamento de Publicidade. Um único funcionário do estúdio e um intérprete foram designados a levá-los até o local de destino, onde ficariam hospedados. Silêncio total. Decepção idem. O casal de artistas aguardou por meses um contato do chefão da Metro, sem retorno. Isso era claramente um sinal do tão pouco ou quase nada que eles representavam no momento.
Sozinhos num país estranho, eles odiaram o calor da Califórnia. Garbo escreveu várias cartas à um amigo na Suécia e á sua irmã Alva, expressando sua tristeza e raiva por tudo o que estava acontecendo, além da saudade do frio e da neve de Estocolmo. Na reunião que tiveram, antes de embarcarem para a América, estavam Greta, Stiller, Mayer e seu intérprete, a quem pediu para dizer, no final da conversa: "Diga a ela que nos EUA não gostamos de mulheres gordas". Então, no tempo em que passaram esperando uma troca de boa vontade de Mayer, Garbo entrou em uma dieta rigorosa. Stiller, que àquela altura já era considerado um cara indesejável no local, havia conquistado esta fama na época da estadia no hotel, quando ligou várias vezes para o escritório de Mayer e mandou-lhe telegramas sem nenhuma resposta. Só por que estavam pagando ao casal, achavam que eles não deveriam incomodar. Não incomodariam, se tivessem tido um pouco de consideração do estúdio, naquele período.
Suas vidas só tomaram rumo depois que conheceram o fotógrafo Arnold Genthe. Da sessão de fotos, as melhores foram escolhidas para divulgação e uma delas foi parar na revista Vanity Fair. Mais uma vez, o amigo e também diretor sueco Victor Sjöström os ajudou quando recebeu as fotos e as colocou em contato com L. B. Mayer. Não a reconhecendo, ele perguntou quem era a garota, fascinado por sua beleza. Era Garbo, que estava na Califórnia sob seu contrato há meses, esperando com Stiller um sinal para começarem a trabalhar. Os dois estrangeiros já haviam perdido as esperanças e estavam fortemente decididos a voltar para a Suécia. Stiller, então, com seu orgulho de grande diretor ferido, não aguentava mais nenhuma humilhação e não via sentido em continuar com migalhas num lugar em que nem era sua terra natal.
Mas as fotos deram certo e Garbo junto a Stiller foram chamados. O primeiro filme de Greta foi THE TORRENT(1926), como Leonora, baseado na obra de Blasco Ibáñez, trouxe-a ainda mais humilhações. Como não sabia falar Inglês, Sven Hugo Borg foi contratado para ensiná-la. A atriz dizia coisas como "important" no lugar de "imported" e era alvo de risos da equipe de filmagem, em especial Ricardo Cortez(seu par no filme). Além de não se dirigir a ela, ele a sacaneava e a esnobava, pois se considerava superior "a uma sueca estúpida que não era ninguém", segundo ele mesmo afirmou. Cortez ficou com raiva da atenção concedida à nova estrela, pois achava que era um astro em potencial e não entendia o porquê de tanto para Garbo. Na cena da tempestade, ele tomou os cobertores das mãos de Borg, deixando a colega de elenco ensopada e congelada.
Na produção seguinte, THE TEMPTRESS(1926), estava combinado de que Stiller iria dirigir. No início das filmagens, o sueco achou um absurdo aquela quantidade de gente no set e, segundo seus métodos europeus, aquilo só atrapalhava, ao invés de ajudar. pediu para todos saírem, pois achava que só o diretor era necessário para filmar. Irving Thalberg não gostou nada do que viu e as informações chegaram à Mayer, que não suportava mais o autoritarismo de um diretor dentro do "seu estúdio". Mauritz Stller também foi extremamente humilhado por não falar Inglês. Ele dizia "direita" quando queria dizer "esquerda". Além de tudo, as pessoas em volta riam ainda mais de seus gestos extravagantes, desrespeitando-o descaradamente. Quando a última gota transbordou o copo, ele foi demitido e o filme foi terminado por Fred Niblo. Como se não bastasse, a cena do baile, que ele havia dirigido, foi cortada, para dar sequência a um novo rumo ao filme.
Stiller tentou prosseguir, apesar de tudo, sua carreira lá e fez muito sucesso com HOTEL IMPERIAL(1927), porém, triste e desiludido após o fracasso de suas outras tentativas, ele retornou à Suécia em 1928 e faleceu meses depois, doente e desiludido. Garbo, devastada, não pôde ir ao seu funeral. Ela também não pôde ir ao funeral da irmã, Alva, falecida no meio das filmagens de THE TEMPTRESS.
Quando se tornou super estrela da Metro nos anos 30, depois de GRAND HOTEL(1932) e MATA HARI(1931), à medida em que ia pegando intimidade com a língua inglesa e crescendo os box offices no mundo inteiro, Garbo passou a ditar as regras. Ela chegava na parte da manhã, fazia seu trabalho, exatamente como era para ser feito, com direito a aparecer impecavelmente vestida direto de seu camarim, para os sets de filmagem, e saía pontualmente às 18 horas. Mesmo se faltasse uma cena, não importava. Seu horário de trabalho era até às seis e ela não retrocedia. Simplesmente se vestia e ia embora, sem dar satisfação a ninguém. Era chegado o momento da vingança. Eles não queriam perdê-la, então teriam que dançar conforme sua música. Não sei dizer até hoje, mesmo depois de ter tentado encontrar a resposta através dos livros, o porquê da saída de Garbo do Cinema, tão cedo. Será que ela se cansou de vez? Por tantas coisas passou, aturando as grosserias de Mayer, que dentre outras atrocidades, disse-lhe certa ocasião: "Nós oferecemos Champanhe e caviar da melhor qualidade pra você, mas você se enfurna aí dentro com sua marmita. Vá comer sua carne com batatas em outro lugar". Não se trata um artista assim. E eles não souberam respeitar e ver em Garbo a mágica que vemos hoje. Não se importavam. Para eles, ela era apenas um produto. Para o público, uma atriz genuína, que saiu de cena e deixou tantos anos sem o seu charme único. Os anos 40 inteiros a perderam(a partir de 1941), assim como os anos 50, 60, 70 e tanto que ela poderia proporcionar. Em 1939, fez NINOTCHKA, sua única comédia, de maneira tão graciosa, que pensamos: será que os tantos dramas que protagonizou a influenciaram ou foi obra de uma dura e triste realidade chamada vida?
A cabeça jogada para trás enfatizava o drama por trás do romance. Garbo era especial.


"Existem muitas coisas íntimas que não devemos revelar à outras pessoas. Estas são nossas alegrias e tristezas. Coisas que fazem parte de você, suas amarguras e sonhos secretos, e você jamais deve revelá-los. Você se torna barato, por dentro, quando as revela".
"Cada um de nós vive uma vez só. Quando somos honestos, viver uma vez basta".


16 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Muito bem escrito, Dani. Você traduziu a musa Garbo com exatidão e densidade.
Bravo.

O Falcão Maltês

Daniele Moura disse...

Obrigada, Antonio. Olha o que a paixão faz! Nos deixa inspirados, à flor da pele! Muito tocada com os seus elogios!
Um abraço
Dani

disse...

A maioria das estrelas da época de Garbo eram produtos dos estúdios e vistas por eles como meras mercadorias. A própria Garbo tinha aspirações maiores, de interpretar personagens mais masculinizados, mas seus chefes acreditaram que não combinariam com sua persona cinematográfica... Uma pena! Olhamos hoje para trás e esquecemo-nos desses chefes, mas lamentamos o que perdemos do talento de Garbo!

Daniele Moura disse...

É, eu me lembro de ter lido da vontade de Garbo em filmar O Retrato de Dorian Gray e convidar Marilyn para co-estrelar junto dela. E Garbo seria o Dorian Gray. Bem interessante a idéia...

Amigas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fabbiana Garbo disse...

Parabéns, Dani!!! É sempre bom ver a Greta sendo lembrada e adorada!!! Um beijão!!

Daniele Moura disse...

Obrigada, Fabbi! Leia também o post sobre The Single Standard. Tem uma surpresinha no final:
http://telaprateada.blogspot.com/2010/11/single-standard-1929.html
Um abraço
Dani

alan raspante disse...

Demorei para conhecer esta grande atriz!

Rubi disse...

É sempre um prazer vir ao seu blog! Sou fã do trabalho de Greta Garbo. Era uma atriz talentosíssima; além de muito elegante - na minha opinião, claro-

*Cada vez que recebo um comentário seu, me sinto até lisonjeada. É um prazer recebê-la em meu blog.

Até mais!

E. SANCHES disse...

Acabei de conhecer este blog através de um comentário que voce deixou em um blog de Cinema. Postagem fantástica. Incrível como estas fotos lembram algumas que tenho com minha esposa.
Grande blog. Parabéns. Vou indica-lo a alguns blogueiros amigos que curte este seguimento também.
Conheça o meu blog com muita música e exclusivo sobre o Bang Bang à Italiana no Brasil.
www.bangbangitaliana.blogspot.com
de.sanches@hotmail.com

Daniele Moura disse...

Alan, pois é, eu conheci o trabalho bem cedo. E nunca mais larguei!
Rubi, obrigada por sempre estar aqui. É um prazer imenso recebê-la.
E.Sanchez, obrigada pelos elogios. Que bom que gostou. Vou passar lá sim, com certeza! Agradeço também pela indicação!
Um abraço
Dani

As Tertulías disse...

Que beleza de postagem, Dani.

Uma beleza mesmo...

Uma das primeiras coisas que leio depois de voltar da Tailandia... Cheguei em casa às 06:35 hs... Agora sao 08:35... e eu aqui curtindo o "beijo de boca aberta" de Garbo com Gilbert - sabia? Foi o primeiro do cinema... antes do Hays Code... (Voce conhece a cena do memso filme na qual ela transforma um cálice de vinho na igreja - objeto sagrado - num dos mais profanos objetos????? Incrível... Que ousadia para 1927... Para mim até hoje uma das cenas mais ousadas do cinema).

Bravo amiga... Mais uma das suas "arrasantes" postagens!!!!!! Obrigado (P.S. Coloquei uma notinha para voce na postagem das Tertúlias sobre Deborah Kerr... ) beijos
Ricardo

Daniele Moura disse...

Olá, Ricardo!
Bem vindo de volta!!!
Sim, a cena do cálice na missa, é de FLESH AND THE DEVIL também. Arrasador! E tão atual. É incrível como coisas de 1927 ainda podem ser vistas como um filme lançado ontem. Aliás, os filmes dela dos anos 20(seus anos de Vamp) são todos sensualíssmos!! Provocadores! Mas não sabia que o beijo de boca aberta dela e do Gilbert foi o primeiro antes do Hays Code. Obrigada pela info!
Grata pelos elogios. É sempre muito bom tê-lo aqui, comentando, participando.
Um abraço
Dani

Faroeste disse...

Jamais consegui ver um filme completo com esta tão decantada atriz. Tentei ver Ninothka, A Rainha Cristina e Mata Hari. No entanto a presença dela jamais de induzia a seguir as fitas até o fim. Nunca vi ali a tal "divina" tão falada nem uma atriz da beleza resplandescente conforme se fala até hoje.
Perdoem-me, mas sigo preferindo a doçura e singeleza de Gene Tierney, o estonteamento de MM, as belezas arrebatadoras de Gail Russel e Lana Turner, a insuportabilidade de Betty Davis, que apesar de tudo era grande atriz, e a delicia de me prazeirar com o rosto perfeito de Donna Reed. Que me desculpem os fãs de Garbo.
jurandir_lima@bol.com.br

Daniele Moura disse...

Jurandir,
imagina! Aqui há espaço para todos os tipos de opiniões.
Eu gosto muito das atrizes que você citou, especialmente MM, Gene e Lana.

Daniele Moura disse...

Ah, sim, Bette Davis, fenomenal. Estou assistindo todos os filmes que posso dela.