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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Horror e suspense em THE INNOCENTS(1961)


Uma casa mal-assombrada. A governanta que chega e descobre os segredos de um passado longínquo. O espectador pensa que a mulher não vai suportar, mas ela é corajosa e não só suporta como também tenta desvendar os mistérios que rondam a casa. Tantos filmes foram feitos com esta temática, do trash ao cinema espetacular, com elencos terríveis ou fabulosos. Roteiros escabrosos versus obras-primas. Todos os lados bons destas comparações acima pertencem ao grande THE INNOCENTS(1961), dirigido por Jack Clayton. Exaure um perfume especial de mestres da literatura universal: o filme foi roteirizado por Truman Capote e William Archibald, baseados na obra THE TURN OF THE SCREW, de Henry James.
O início dos anos 60 trouxe novidades, como é claro, todas as décadas trouxeram para o cinema, porém, a estética sessentista, como por exemplo a tela toda preta na abertura, para termos em seguida Deborah Kerr rezando, faz parte da arte daquela época e a torna um tanto intrigante para um filme de suspense, e por que dizer...o torna também mais interessante? Só no decorrer do filme descobrimos o porquê da Sra.Giddens rezar tanto. Os psicodélicos anos sessenta contrastando com uma atriz veterana, em seu auge de talento artístico e beleza. Deborah: o rosto imaculado em BLACK NARCISSUS e a junção de uma sexualidade latente, praticamente à flor da pele em FROM HERE TO ETERNITY. Agora, em THE INNOCENTS, esta beleza tomaria os ares de um tom senhoril. Os cabelos generosos presos em um coque rebelde. Os vestidos sóbrios da senhora governanta Giddens. Os cabelos quase indomáveis  e o guarda roupa impecável dizem muito desta personagem: ela é uma dama recatada, mas há em seu ser a vontade de achar o certo, onde existe o duvidoso. A revolta se instala. O olhar inquieto, desconfiado e confuso. A coragem que venceu o medo, embora possamos ver o medo em seus olhos durante boa parte do filme.
Sim, Deborah Kerr estava pronta para os anos 60, como toda grande atriz, sempre à frente de todos os desafios. Bato na tecla da década ser confrontosa, pois os amantes de cinema sabem que muitos nomes da 7ª Arte se despediram dela e foram para a televisão. Uns foram bem-sucedidos. Outros, não. E assim, THE INNOCENTS se tornou, segundo descrição dela própria, o melhor desempenho de sua carreira. Voltando a outros aspectos preponderantes à produção(também de Jack Clayton), sublime do início ao fim, com um diretor que conseguiu levar uma história de horror às telas, audaciosamente, tal como abordar a questão do espiritismo com seriedade, sem em nenhum momento constranger elenco, público ou a ele mesmo.
O trabalho da governata vivida por Kerr é humanitário e se encontra como um dos temas centrais do filme. Ela está ali para cuidar das crianças e não poupa esforços para fazê-lo, assim que se envolve afetivamente com os pequenos. A Sra.Giddens é o tipo de mulher que transcende seu tempo, recusando-se a colocar vendas nos olhos quando percebe que algo está errado. Ela acredita em tudo, até naquilo que não pode ver ou sentir...até que começa a sentir e ver.. Desde o momento em que se aproxima das crianças, há o feeling. Ela ouve a bonita canção O WILLOW WALY, mas tão magistralmente bem trabalhada na história, que se torna bizarra, na companhia de Flora(Pamela Franklin). Miss Giddens faz do trágico destino das crianças seu próprio trajeto e a cada decisão que toma, se deixa levar pelo redemoinho que é estar envolvida com espíritos. Polêmica é a cena em que o garoto Miles, possuído, a beija direto nos lábios. Não é um celinho. É um beijo colado e longo, perturbador. É claro que é compreensível que tenha-se chegado àquele ponto, por causa do forte teor espiritual do filme. O diretor Jack Clayton ficou preocupado com o resultado, até hoje arrebatador, mesmo depois de exatos 50 anos do lançamento da obra.
Impressionates também são as performances das crianças. Os atores Pamela Franklin e Martin Stephens(Miles), assustadores do início ao fim. Existe uma forte ligação dos personagens do menino Miles com a Esther de Isabelle Fuhrman em ORPHAN(2009). Semelhanças não param por aí, já que THE INNOCENTS foi livre inspiração para THE OTHERS(2001), de Alejandro Amenábar.
Os fantasmas dos antigos serviçais da casa, o mordomo Quint(Peter Wyngarde) e da governanta atormentada Miss Jessel(Clytie Jessop) aparecem pouco, porém o suficiente para dar o clima sobrenatural qua o roteiro pede. Suas cenas de possessão são extremamente perturbadoras e dão uma verdadeira lição do que é o verdadeiro terror: aquele que não precisa de jorros de sangue nas telas a fim de provocar sustos nos amantes do gênero. THE INNOCENTS permanece vivo desde o seu lançamento, com tudo o que um filme precisa para ser bom: direção, roteiro, trilha sonora e equipe técnica competentes. Tiens!!!
Deborah Kerr e Martin Stephens           
                                          Trailler do filme em HQ.

15 comentários:

Corto Maltese disse...

Deborah Kerr é uma das minhas atrizes preferidas de todos os tempos (a pouco tempo eu vi Narciso Negro também).
Esse filme ficou bem fiel ao livro (que também é assustador), captou bem o clima de inquietação crescente e de deixar em aberto se era um caso de possessão ou se tudo não estava na cabeça da protagonista, embora eu acredite mais na primeira hipótese.

Curiosidade: um ano antes de fazer Os Inocentes, o Martin Stephens tinha sido uma das crianças albinas sinistras de A Aldeia dos Amaldiçoados.

Shuya Goenji disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Excelente texto, Dani! Enquanto o lia, ia sendo impregnada dessa angústia vivida pela Sra. Giddens e que você consegue tão bem transferir para sua resenha. Fiquei muito curiosa para ver o filme, porque durante todo seu texto pensei nos pontos de contato dele com "Os outros" (como você bem menciona), filme que acho sensacional, e porque admiro muito da Deborah Kerr, uma das atrizes mais elegantes e talentosas da Hollywood clássica - gosto demais do tom da sua representação, uma mescla de cinema e teatro.

Bjs, amiga, e se cuide bem.
Dani

As Tertulías disse...

Dani,

um dos meus "all time favourites". Até hije me facina (e me assusta) a atmosfera deste filme... as "visoes", o que ouve nos corredores, as "aparicoes" do casal, a loucura deles que se eternizou por dentro das criancas...

Deborah magnífica... Seu primeiro trabalho "mais madura" - Sim, os naos haviam chegado ao seu rosto - tornadoa-a ainda MAIS atriz!!!

Voce chegou a ler o livro de Henry James? Eu o considero, se voce pensa no resto do trabalho de James (e em especial em livros como "Washington Square!, "Portrait of a Lady" e "Daisy Miller") VERY, VERY UNUSUAL... esta "excursao" pelo terror, pelo "Thriller" foi muiissimo inspirada... Em Agosto assisti aqui, no "Theater an der Wien" (nossa terceira Ópera) a ópera (musica de Benjamin Britten). Interessante - nao muito me estilo (a música de Britten nunca mefez a cabeca) mas interessante...

Voce sabia que o autor da peca baseada em Henry James (William Achibald) fez o roteiro do filme em dupla com Truman Capote????? Obrigado por esta MARAVILHOSA postagem. Já está lá no mural das Tetúlias!!!!

P.S. Tenho denovo tido aquela dificuldade de colocar meus comentários aqui... desta vez foi ao contrário... coloquei duas vezes (no "trailer" da postagem... ) só que aqui dei uma corrigida numas coisinhas e acrescentei um pensamento sobre Miss Kerr!!!!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Um dos meus filmes favoritos... Sensacional atuação de Deborah Kerr, fotografia de Freddie Francis e direção de Clayton... Inesquecível...

O Falcão Maltês

Daniele Moura disse...

Obrigada aos amigos pelas opiniões e trocas de informações. Saibam que para mim, a opinião de vocês é fundamental. Continuem participando!
Um ótimo domingo,
Dani

Daniele Moura disse...

Sim, Ricardo, a info sobre o Truman Capote se encontra no texto. Agora, a pergunta que não quer calar: como será que a audiência reagiu ao beijo, hein?

As Tertulías disse...

Te responmdi lá nas Tertúlias sobre "O Rei e eu"... :-))

Carla Marinho disse...

oi querida, post indicado nos links da semana; abraço

Carla Marinho disse...

Oi dani, eu tinha colocado um comentário sobre esse filme. O que houve? abraço

Daniele Moura disse...

Carla,
eu não sei o que pode estar havendo. Os mments estão liberados. Estou preocupada agora...
Obrigada pela indicação!
Ricardo, Vou lá ver!

Rubi disse...

Dani; mas que post incrível!
Este é um dos meus filmes preferidos; tudo nele é perfeito. O elenco, a trilha sonora, a história em si; absolutamente tudo.

Este é o tipo de filme que não me canso de ver, e sempre que posso, recomendo aos meus amigos!

Daniele Moura disse...

Obrigada, Rubi!
É incrível como existem filmes bons e como muito de maravilhoso já foi feito. Eu estou completamente fascinada por este e por outros dois que pretendo escrever em breve.
Um abraço!

Faroeste disse...

Não conheço The Innocents, mas conheço muito bem esta magistral atriz Kerr, com quem já vi muitos bons espetáculos. E, para completar, conheço também alguns trabalhos deste magnifico diretor Jack Clayton. Este deve sim, ser um grande filme. Vou tentar acha-lo.
jurandir_lima@bol.com.br

Daniele Moura disse...

Tente baixá-lo via torrent, Jurandir. O TCM o exibiu há pouco tempo, mas foi de tarde.