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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Gregory Peck em "MacArthur", 1977

Concepção e texto: Paulo Moura
Pesquisa: Daniele Moura

Aos amigos que apreciam como eu o blog de Daniele Moura, peço licença para externar aqui a minha alegria por ter revivido hoje um momento maravilhoso com relação ao cinema, que eu sempre apreciei. Trata-se do magnífico desempenho do ator Gregory Peck no filme MACARTHUR - O GENERAL REBELBE, que retratou principalmente a infeliz atitude do americano em lançar bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, como meio de deter os japoneses.
Eu quase posso afirmar que neste filme o ator teve seu melhor desempenho da carreira e me fez voltar à época das grandes produções, nos áureos tempos do cinema americano. Observem a sequência onde o General faz um pronunciamento aos chefes de Estado e aos japoneses, assinando a remissão sobre os horrores da guerra, bem como às vítimas que morreram nas matas, campos e mares. O filme tem um segundo momento parecido, o final, com um belíssimo monólogo interpretado pelo ator, que representava  o discurso de adeus de Douglas MacArthur. À minha filha, obrigada pela oportunidade e parabéns por este blog, que nos permite apreciar o que é bom.
Paulo Moura.

MACARTHUR, DIRIGIDO POR JOSEPH SARGENT: GREGORY PECK FOI INDICADO A UM GLOBO DE OURO COMO MELHOR ATOR.

Gregory Peck, nascido na Califórnia em abril de 1916, tinha acabado de sair de um grande sucesso do gênero Terror, A PROFECIA, lançado um ano antes de MACARTHUR. Ele se manteve ativo no cinema até  o início dos anos 90, numa carreira que conta com mais de 50 filmes. Desde o início de sua jornada cinematográfica, com DAYS OF GLORY(1944), de Jacques Tourneur, Peck acumulou grandes trabalhos que vão de SPELLBOUND(1945), de Hitchcock, ao lado de Ingrid Bergman, passando pelo fantástico DUEL IN THE SUN(1946), disputando o amor da personagem de Jennifer Jones com Joseph Cotten. No ano seguinte, em GENTLEMEN'S AGREEMENT, de Elia Kazan, ele é um escritor envolto em um assunto bastante polêmico: a questão do anti-semitismo na América. Em 1962, Gregory Peck estaria de volta à polêmica com o aclamado TO KILL A MOCKINGBIRD, de Robert Mullingan. Desta vez seu personagem é um advogado de defesa ao lado de um homem clamando inocência diante da acusação de estupro. O problema é que o acusado no banco dos réus é negro e a vítima, uma mulher branca. O resultado foi um Oscar de Melhor Ator e mais dois por melhor Direção de Arte e Roteiro Adaptado. Ainda inclusos em seu currículo estão HOW THE WEST WAS WON, no mesmo ano, de John Ford; THE GUNS OF NAVARONI(1961), THE SNOWS OF KILIMANJARO(1952), de Henry King, dentre outros. Hoje um ícone do cinema, Gregory Peck faleceu em 2003 e dentre seus últimos filmes está a segunda versão de CAPE FEAR(1991).

sábado, 17 de setembro de 2011

Greta Garbo: os vários gestos e faces de uma atriz mágica.

A cabeça jogada para trás numa cena de amor. Os lábios entre-abertos. As mãos confusas e inquietas, como seus personagens, seguida da expressão de pavor quando o perigo se aproximava. Sua imagem é tão atemporal, que para lembrar destes detalhes basta fechar os olhos e imaginá-la. Tente se recordar dos vários papéis em que Garbo fazia os homens sofrerem e acabava infeliz, com seu rosto cheio de emoção. A voz embargada, carregada de drama junto de um sotaque sueco que a deixava ainda mais interessante. Com sua Camille ou Marguerite, ela morria de Tuberculose, ao lado de Armand(Robert Taylor) e proporcionou ao cinema uma das cenas de leito de morte mais bem construídas da História de Hollywood.
O amor recusado pelo destino ou por alguém que a considerava "imprópria". Somem isto aos amantes de quando era casada e infeliz com algum senhor rico e enfadado. Como o personagem de Lewis Stone em WILD ORCHIDS(1928). A personagem de Garbo, então, se entrega  a uma paixão sem freios. Ela foi várias e as várias não pensavam quando apaixonadas. Era o tempo de se viver uma felicidade que nunca havia experimentado. Com seus amores, Diana Merrick, Lillie, Felicitas, Camille, Anna Karenina iam até o fundo com todo o sentimento, se rebaixavam em humilhação e por fim, sucumbiam a um destino trágico levadas pela insegurança.
Garbo soube expressar como ninguém estes sentimentos, e em vários outros papéis, desde sua estreia norte-americana em 1926 até 1941, quando fez seu último filme e se aposentou, muito cedo, aos 36 anos. Seja se entregando nos braços de seu amado Leo(John Gilbert) num divã, deixando-se ser pega pelo marido em FLESH AND THE DEVIL(1927) ou provocando os homens latinos em uma mesa de jantar, somente com um levantar de axilas em THE TEMPTRESS(1926), nos anos 20, Garbo era erotizada pela Metro. Na década seguinte, quando viveu seu auge, após ter passado pelo teste do som com ANNA CHRISTIE(1930), seus papéis passaram de vamp auto-destrutiva à heroínas românticas, como QUEEN CHRISTINA(1933), CAMILLE(1936), ANNA KARENINA(1935). Ela continuava sofrendo, mas sua persona em cena estava então mais sofisticada e clássica.
Porém esta trajetória se desenvolveu, infelizmente, com momentos desagradáveis para a atriz.

A vamp erotizada dos anos 20 foi descoberta pelo diretor Mauritz Stiller...

...mas sua trajetória foi escrita com desagravos, onde a humilhação foi o que mais marcou.
Antes de chegar em Hollywood, Greta já era uma estrela na Suécia. Seu nome e imagem chegaram ao conhecimento de L.B. Mayer, que inicialmente não se interesssou por ela e sim por seu mentor: Mauritz Stiller. No entanto, sob insistência de Victor Sjöström, Mayer assistiu ao filme dirigido por Mauritz Stiller, GÖSTA BERLINGS SAGA(1924) e adorou, mudando o pensamento sobre a sueca, por ele então desconhecida. A pedido de Stiller, Garbo foi levada à América e contratada, mesmo com um Mayer não muito satisfeito com o que tinha acabado de fazer. Quando eles chegaram, o inferno começou: só um fotógrafo apareceu para recebê-los e não dezenas, como eles haviam sonhado e imaginado que seria. Nenhum repórter, dezenas de assistentes ou gente do Departamento de Publicidade. Um único funcionário do estúdio e um intérprete foram designados a levá-los até o local de destino, onde ficariam hospedados. Silêncio total. Decepção idem. O casal de artistas aguardou por meses um contato do chefão da Metro, sem retorno. Isso era claramente um sinal do tão pouco ou quase nada que eles representavam no momento.
Sozinhos num país estranho, eles odiaram o calor da Califórnia. Garbo escreveu várias cartas à um amigo na Suécia e á sua irmã Alva, expressando sua tristeza e raiva por tudo o que estava acontecendo, além da saudade do frio e da neve de Estocolmo. Na reunião que tiveram, antes de embarcarem para a América, estavam Greta, Stiller, Mayer e seu intérprete, a quem pediu para dizer, no final da conversa: "Diga a ela que nos EUA não gostamos de mulheres gordas". Então, no tempo em que passaram esperando uma troca de boa vontade de Mayer, Garbo entrou em uma dieta rigorosa. Stiller, que àquela altura já era considerado um cara indesejável no local, havia conquistado esta fama na época da estadia no hotel, quando ligou várias vezes para o escritório de Mayer e mandou-lhe telegramas sem nenhuma resposta. Só por que estavam pagando ao casal, achavam que eles não deveriam incomodar. Não incomodariam, se tivessem tido um pouco de consideração do estúdio, naquele período.
Suas vidas só tomaram rumo depois que conheceram o fotógrafo Arnold Genthe. Da sessão de fotos, as melhores foram escolhidas para divulgação e uma delas foi parar na revista Vanity Fair. Mais uma vez, o amigo e também diretor sueco Victor Sjöström os ajudou quando recebeu as fotos e as colocou em contato com L. B. Mayer. Não a reconhecendo, ele perguntou quem era a garota, fascinado por sua beleza. Era Garbo, que estava na Califórnia sob seu contrato há meses, esperando com Stiller um sinal para começarem a trabalhar. Os dois estrangeiros já haviam perdido as esperanças e estavam fortemente decididos a voltar para a Suécia. Stiller, então, com seu orgulho de grande diretor ferido, não aguentava mais nenhuma humilhação e não via sentido em continuar com migalhas num lugar em que nem era sua terra natal.
Mas as fotos deram certo e Garbo junto a Stiller foram chamados. O primeiro filme de Greta foi THE TORRENT(1926), como Leonora, baseado na obra de Blasco Ibáñez, trouxe-a ainda mais humilhações. Como não sabia falar Inglês, Sven Hugo Borg foi contratado para ensiná-la. A atriz dizia coisas como "important" no lugar de "imported" e era alvo de risos da equipe de filmagem, em especial Ricardo Cortez(seu par no filme). Além de não se dirigir a ela, ele a sacaneava e a esnobava, pois se considerava superior "a uma sueca estúpida que não era ninguém", segundo ele mesmo afirmou. Cortez ficou com raiva da atenção concedida à nova estrela, pois achava que era um astro em potencial e não entendia o porquê de tanto para Garbo. Na cena da tempestade, ele tomou os cobertores das mãos de Borg, deixando a colega de elenco ensopada e congelada.
Na produção seguinte, THE TEMPTRESS(1926), estava combinado de que Stiller iria dirigir. No início das filmagens, o sueco achou um absurdo aquela quantidade de gente no set e, segundo seus métodos europeus, aquilo só atrapalhava, ao invés de ajudar. pediu para todos saírem, pois achava que só o diretor era necessário para filmar. Irving Thalberg não gostou nada do que viu e as informações chegaram à Mayer, que não suportava mais o autoritarismo de um diretor dentro do "seu estúdio". Mauritz Stller também foi extremamente humilhado por não falar Inglês. Ele dizia "direita" quando queria dizer "esquerda". Além de tudo, as pessoas em volta riam ainda mais de seus gestos extravagantes, desrespeitando-o descaradamente. Quando a última gota transbordou o copo, ele foi demitido e o filme foi terminado por Fred Niblo. Como se não bastasse, a cena do baile, que ele havia dirigido, foi cortada, para dar sequência a um novo rumo ao filme.
Stiller tentou prosseguir, apesar de tudo, sua carreira lá e fez muito sucesso com HOTEL IMPERIAL(1927), porém, triste e desiludido após o fracasso de suas outras tentativas, ele retornou à Suécia em 1928 e faleceu meses depois, doente e desiludido. Garbo, devastada, não pôde ir ao seu funeral. Ela também não pôde ir ao funeral da irmã, Alva, falecida no meio das filmagens de THE TEMPTRESS.
Quando se tornou super estrela da Metro nos anos 30, depois de GRAND HOTEL(1932) e MATA HARI(1931), à medida em que ia pegando intimidade com a língua inglesa e crescendo os box offices no mundo inteiro, Garbo passou a ditar as regras. Ela chegava na parte da manhã, fazia seu trabalho, exatamente como era para ser feito, com direito a aparecer impecavelmente vestida direto de seu camarim, para os sets de filmagem, e saía pontualmente às 18 horas. Mesmo se faltasse uma cena, não importava. Seu horário de trabalho era até às seis e ela não retrocedia. Simplesmente se vestia e ia embora, sem dar satisfação a ninguém. Era chegado o momento da vingança. Eles não queriam perdê-la, então teriam que dançar conforme sua música. Não sei dizer até hoje, mesmo depois de ter tentado encontrar a resposta através dos livros, o porquê da saída de Garbo do Cinema, tão cedo. Será que ela se cansou de vez? Por tantas coisas passou, aturando as grosserias de Mayer, que dentre outras atrocidades, disse-lhe certa ocasião: "Nós oferecemos Champanhe e caviar da melhor qualidade pra você, mas você se enfurna aí dentro com sua marmita. Vá comer sua carne com batatas em outro lugar". Não se trata um artista assim. E eles não souberam respeitar e ver em Garbo a mágica que vemos hoje. Não se importavam. Para eles, ela era apenas um produto. Para o público, uma atriz genuína, que saiu de cena e deixou tantos anos sem o seu charme único. Os anos 40 inteiros a perderam(a partir de 1941), assim como os anos 50, 60, 70 e tanto que ela poderia proporcionar. Em 1939, fez NINOTCHKA, sua única comédia, de maneira tão graciosa, que pensamos: será que os tantos dramas que protagonizou a influenciaram ou foi obra de uma dura e triste realidade chamada vida?
A cabeça jogada para trás enfatizava o drama por trás do romance. Garbo era especial.


"Existem muitas coisas íntimas que não devemos revelar à outras pessoas. Estas são nossas alegrias e tristezas. Coisas que fazem parte de você, suas amarguras e sonhos secretos, e você jamais deve revelá-los. Você se torna barato, por dentro, quando as revela".
"Cada um de nós vive uma vez só. Quando somos honestos, viver uma vez basta".


domingo, 11 de setembro de 2011

NY, I Love You: Serpico, 1973

11 de setembro de 2001 ficará marcado para sempre como um dia trágico, quando aviões colidindo com as Torres Gêmeas, provocaram mortes de pessoas inocentes, civis que não tinham nada a ver com a guerra sem freios entre Estados Unidos e Oriente Médio. Aquelas pessoas, funcionárias do World Trade Center só estavam ali para cumprir suas funções. Trabalhar e no final do dia, encontrar suas famílias em casa. Estas famílias certamente choram, exatos 10 anos após o acontecimento, as mortes de seus entes queridos.
Os anos 70 trouxeram para o cinema norte-americano o realismo que os diretores europeus já mostravam em décadas passadas. Graças à cineastas jovens como Martin Scorsese, Stanley Kubrick, Woody Allen e outros, temas como homossexualiamo e o sexo em geral, tráfico de drogas e corrupção, dentre outros, começaram a ser abordados de frente, sem dedos ou medo do que o público ou a crítica poderiam pensar. Os filmes eram pensados não para o público, com aquela cautela dos anos 40 e 50 com o Código Hayes vigente, impondo a "decência" às famílias, mas sim para os próprios artistas envolvidos e suas mentes embuídas em fazer um cinema mais relacionado com o que estava-se vivendo naquele momento. A mulher dos anos 70 não era a mesma, o adolescente também não. A música mudara. E o cinema tratou de fazer o mesmo. Era inaugurada a "new Hollywood".
 Sidney Lumet, nascido na Philadelphia, em 1924, fez filmes memoráveis como UM DIA DE CÃO(1975) e REDE DE INTRIGAS(1976). Anos antes, em 73, a temática de corrupção na polícia nova-yorquina, baseada na história real do policial Frank Serpico deu origem a um filme memorável. SERPICO, todo rodado em Nova York, tem como personagem-título o então jovem ator Al Pacino. Ele havia saído de um estrondoso sucesso - THE GODFATHER, no ano anterior, filme que o consagraria como grande talento da atuação. Realmente, depois deste filme, sua carreira mudaria para sempre. A história de SERPICO foi contada com a presença do próprio policial, já aposentado, nos sets de filmagens. Ele esteve presente até um certo período de gravações, quando o produtor Martin Bregman achou melhor tirá-lo  por considerar sua presença no local um tanto desconcentrante. Al Pacino conviveu com o real Serpico, a fim de construir melhor seu personagem e então, o convidou para morar em seu apartamento, a poucos blocos de onde eram gravadas as principais cenas do filme.
Frank Serpico arriscou sua própria vida ao confrontar a máfia da corrupção entre policiais na Nova York no final dos anos 60. Descobrindo que seu parceiro nas ruas aceitava propina, ele se esquivou, negando-se em aceitar dinheiro e atuou como observador deste e de seu segundo parceiro, que também era corrupto. Serpico passou então a fazer denúncias internas de seus colegas, mas o Chefe de Departamento de Polícia negou-se a ajudá-lo e o transferiu para Manhattan. Até que uma proposta de fazer a denúncia de corrupção ao The NY Times joga tudo no ventilador e Serpico é intimado a depôr. Dentro do Departamento, ele é ameaçado e humilhado por alguns "colegas" de trabalho, mas sua coragem e rebeldia são suficientes para enfrentá-los e permanecer imune a qualquer ameaça. Frank teve seu ouvido esquerdo atingido por um tiro, durante uma batida policial no apartamento de traficantes, que dispararam a arma com a porta entre-aberta. O resultado foi a surdez definitiva deste ouvido.
O filme baseado no livro de Peter Maas foi roteirizado por Waldo Salt e traz um personagem revoltado com o Sistema, o qual ele diz, na maior parte do enredo, "totalmente corrompido". A atuação de Al Pacino permite que o público veja o homem por trás da figura do policial, sensível e humano. Se já fosse possível esperar encontrar a humanidade pelo simples fato de ser um policial honesto, Al Pacino vai além, com sua atuação à beira da loucura. Um personagem honesto no meio de um ninho de ratos. Serpico tem momentos de solidão, intensas brigas com namoradas, parceiros, gente da alta patente da Polícia, acessos de raiva e com sua incansável luta ele tenta abrir os olhos de um sistema cego pelo dinheiro, quando só o que estava em risco era sua própria pele. Porém, ele sobreviveu a tudo, tem um filho e parece que a honestidade venceu.